9 de abr. de 2013

A INFÂNCIA TRISTE


Tania Virginia e outras histórias 
conto da jornalista Eleonora Ramos








Eu me lembro de Tânia Virgínia com uns seis, sete anos. Tinha por volta de dez e, fora meus irmãos e primos, não conhecia na intimidade nenhuma outra criança. Os colegas de escola, naquele tempo, eram colegas de escola. Com raras exceções, não eram vistas com bons olhos maiores proximidades. Pouco se sabia de suas famílias e todas, quase todas, tinham “podres” a esconder, tipo desfalques, crimes de mando e, principalmente, amantes. Muitos homens ostentavam segundas famílias ou teúdas e manteúdas, personagens comuns e marginalizadas da sociedade sergipana de então. 


A elite tinha dinheiro, muito dinheiro. O resto eram comerciantes e profissionais liberais, basicamente médicos, dentistas e advogados. Pobres feito Jó. Quando conseguiam juntar alguma coisa, estavam velhos e honrados, naturalmente.

Comerciantes como seu Moreira, homem sério, que conseguia ser kardecista, comunista, maçon, sócio do Lyons e diretor da Associação Atlética. Tudo ao mesmo tempo. Sertanejo de origem, depois vendedor ambulante e lojista, seu Moreira falava pouco, inteligente o bastante para não expor seus parcos conhecimentos, sua cultura de almanaque. Fazia o estilo honesto, caladão, rígido, infalível. O Pai.

Não fosse D. Núbia, aquela casa era uma tristeza. Ela andava e falava o tempo todo, professora, poeta,modista. O casamento sem amor aos 15 anos tornou-a envelhecida já aos 30, nervosa, cercada por quatro filhos adolescentes. Como seu Moreira, parecia infalível, senhora onipotente de tudo que existia atrás dos altos muros de sua casa. Nada se passava que não soubesse, apesar das inúmeras atividades. Fundara e dirigia um colégio, estava sempre envolvida com cursos de dança, shows beneficentes, festas de Natal, procissões, desfiles. Escrevia discursos, apesar da ortografia capenga, lia Allan Kardec e era mestra em vestidos de noiva .

Tânia Virgínia nasceu nessa família, mas nunca foi exatamente dessa família. Cresceu no quartinho dos fundos da casa, com a mãe, D.Novelina, que chamávamos Velina e que não se cansava de maldizer a sorte, a vida que levava criando de favor uma menina endiabrada dentro da casa dos patrões. Velina, cabocla forte, de pés enormes, trabalhou em regime escravo por mais de trinta anos na família Moreira. Como os escravos, nunca teve férias, nem feriados, nem horário de trabalho. Diferente deles recebia um mísero salário no fim do mês. Melhor para os patrões: garantiam um quartinho no fundo e a comida. O resto era com eles, os empregados domésticos. 

Tânia Virgínia cresceu como um estorvo, nasceu devedora, perdedora. Se os filhos de D. Núbia comiam cuzcuz com manteiga, o dela era encharcado de leite. Os outros podiam gritar e correr pela casa, o que lhe era terminantemente proibido. 

Mesmo assim, repetiam-lhe que tinha sorte porque comia bem, tinha um teto, roupas e bom colégio. E de fato, nas datas festivas, usava um vestido novo, que tinha de vir mostrar a D. Núbia. Um desfile humilhante a que as outras crianças não eram obrigadas. “Está linda, muito bem, vê se se comporta!” 

Estudar justamente no colégio de D. Núbia podia ser um privilégio, mas marcou sua alma de muitas cicatrizes. Os colegas sabiam que era a filha da empregada. Viam quando ia pra cozinha da casa merendar, geralmente bolachão com refresco. Amigos mesmo, nunca teve nenhum. E deveria tirar as melhores notas, afinal, estava de graça no colégio da patroa e ainda era preguiçosa? Preguiçosa, mentirosa, treiteira. Motivos suficientes para surras, muitas surras. De todos, a toda hora.

Talvez no fundo ficasse revoltada, mas a violência dos patrões tinha o poder de despertar a ira de Novelina que baixava sem pena o tamanco de madeira na cabeça de Tânia Virgínia, nas pernas, na bunda magra. Parecia que quanto mais a menina gritava, mais ela se sentia redimida, em dia com os patrões. Estava fazendo a sua parte, castigando aquela peste de menina. No fundo, ela admirava os filhos de d. Núbia. Meninos bonitos, limpos, sempre bem penteados. E a caçula então! Uma boneca, quase um anjo. Por que gente pobre tinha de ser feia e desgrenhada, por que sua Tânia Virgínia estava sempre com aquela cara de fome, por que não engordava como os outros? Ora, porque, porque teimava em não comer, não comer nada, nunca, como se não fosse gente, nem bicho. 

Durante os anos em que convivi com a família Moreira, nunca entendi porque consideravam tão graves as faltas de Tânia Virgínia. Do alto dos meus dez anos, tinha uma pena infinita dela, magrinha, feia, a boca enorme, sempre apertada num esgar de raiva e desprezo. Por causa da pele, marronzinha clara, avermelhada, como diziam, era chamada de formiga de roça. Geniosa, que menina geniosa. Sempre tive admiração pelas crianças que os adultos classificavam de “geniosas”. Apanhavam caladas, choravam sem lágrimas, repetiam o erro, odiavam em silêncio.

Mas ser geniosa na situação de Tania Virgínia já era heroísmo. Por isso ficava de longe olhando pra ela, vi-a algumas vezes apanhando com a boca cheia de comida, que mandavam “engula, engula” e ela vomitava. Não comia nunca, como se assim ajudasse a dar fim ao seu próprio corpo martirizado. Talvez sonhasse em acabar tudo, em morrer enfim, para se livrar da mão enorme de seu Moreira, à noite, nos dias em que lhe faziam alguma grave denúncia a seu respeito. Faltas graves teriam de ser castigadas pelo seu Moreira em carne e osso. Coisas como pegar goiaba no pé, atrasar a comida dos passarinhos, andar descalça ou demorar em tirar a mesa. 

Certa vez perdeu o lápis e mais, o lápis e uma borracha branca, novinha, agarrada no alto. Prejuízo pro seu Moreira, falta gravíssima. Seu Moreira não usava nada além da própria mão, batendo com força na bunda, nas pernas, nas costas. Mesmo toda manchada de vermelho, Tânia continuava em falta, a surra aborrecia seu Moreira, lhe fazia mal. 

Acostumou-se desde pequenininha a pegar os chinelos de D.Núbia, a procurar seus óculos, a correr na venda para comprar linha, bolachão, sal. Entre fazer os deveres da escola, cumprir ”suas obrigações” e dormir mal, acossada por muriçocas e pesadelos, não sobrava tempo para Tânia brincar. Acostumamo-nos a incluí-la nas brincadeiras apenas aos domingos e feriados, ou quando os donos da casa viajavam para o Rio de Janeiro, duas vezes por ano.

Como nós, Tânia também cresceu. Muito magra, a boca sempre cerrada e os olhos rasgados, tristes mas espertos, como se planejassem uma grande vingança. Como se um dia pudesse vibrar o cinturão nas pernas de D.Núbia. O dia em que jogaria no chão o prato cheinho de comida. O dia em que responderia só não. Vá fazer isso, já. Não, não, não vou, não quero, não acho. 

Tânia acabou crescendo sem comer quase nada e sem nunca dizer não. Os olhos espertos cedo escureceram. Lembro-me das vezes que a vi sentada diante de um monte de feijão, carne e farinha, o chinelo de couro de d.Núbia, virado com a sola suja pra cima, pousado ao lado do prato. Pratos enormes, muitas chineladas, a comida ia parar na vasilha do cachorro e Tânia maldita, mil vezes maldita, culpada por levar d. Núbia àquele estado de nervos. 

O que mais me admirava era como conseguia cumprir a ordem que acompanhava os tapas e chineladas: “engula o choro, já” e ela engolia, tinha uma técnica de espremer o rosto e engolir, mesmo, os soluços. Eu, meus irmãos, meus primos, ninguém conseguiria tal proeza.

As surras em Tânia marcaram também a minha infância. Será que ela encarnava um pequeno demônio e por isso precisava ser permanentemente exorcizada a pancadas? Não entendia porque a castigavam tanto. Seria tão perigosa, tão infame? Brincando com a gente de cozinhado, de circo, de escola, era uma menina normal, sempre meio assustada. E ria, sabia rir. 

Crescemos, não brincávamos mais e um dia, afinal, Tânia e Velina se mudaram. Conseguiram uma casa num programa social. Tânia fez o segundo grau, curso de magistério. A vida seguiu seu rumo e nos perdemos. 

Uma vez perguntei a D. Núbia por ela. Falou como uma mãe fala de uma filha. “Matriculei no São Tomás, ela fez todo o segundo grau. Vai bem. É professora da prefeitura. Casou, mas não deu certo. Engravidou, mas perdeu, duas vezes. Sustenta a mãe, dizem que é uma pessoa muito direita.”

Enquanto ela falava, revi sua antiga cara de ódio, ouvi os gritos de Tânia, o chinelo em cima da mesa. Lembrei o cinturão, Tânia repetindo as mesmas lições, as mesmas cópias, aquela letra horrorosa, você além de burra, é malcriada. Tomávamos refresco de mangaba na varanda e ela lá, naquela mesa bem no meio da sala, à vista de todos, tentando inutilmente fazer os deveres. 

Anos depois, de repente, a avistei. Eu, de férias, queimada de sol, encharcada de água de côco, ela, sobrevivente, numa esquina do centro de Aracaju, ainda magra, precocemente curvada. Acho que voltava do trabalho, os cabelos de formiga da roça esfiapados, brilhando ao sol do fim da tarde. Parecia cansada, caminhava devagar, as pernas finas bem separadas, o saltinho pequeno e torto do sapato preto, o vestido velho, bem passado. E a mesma boca grande retorcida. Do que ainda teria raiva? Reconheci o mesmo jeito de olhar para os lados, como se visse cinturões vibrando no ar. 

Claro, o casamento não deu certo, o segundo grau de pouco lhe valeu, perdeu os filhos que gerou. Talvez não tenha querido botar filhos no mundo, não no mundo que conhecera. Talvez tivesse ficado com medo do marido, de todos os possíveis maridos. Talvez nunca tivesse ousado uma promoção no emprego público, talvez nunca tenha conseguido, de fato, ser professora. Talvez nunca tenha esquecido as mãos enormes de seu Moreira, o tamanco de Velina, as humilhações. 

Talvez ainda lhe doam as noites de São João. Tantos fogos bonitos e ela só olhando. Como se a luz dos fogos e da fogueira expusessem sua desgraça, sua imensa solidão. As noites de São João talvez tenham ajudado a matar, para sempre, suas chances de ser feliz.

Bahia/2005

Fonte: Blog Educar sem Violência. Cida Alves. 2013. Disponível em: http://toleranciaecontentamento.blogspot.com.br/2010/11/infancia-triste.html. Acesso em: 09 abr. 2013.

8 de abr. de 2013

Em tempos de barbárie: 27 moradores de rua são assassinados em Goiânia


Força tarefa investiga assassinatos de moradores de rua em Goiânia

Moradores de rua assassinados em Goiânia
Manifesto em repúdio aos assassinatos de moradores de rua


“O coordenador do Centro de Direitos Humanos tem outra opinião. ‘Tem situações em que há uma clara simulação. Quando eu vejo três pessoas descerem de um carro e matarem dois moradores a pauladas, como foi o caso desse penúltimo assassinato, eu creio que estão dissimulando a forma de assassinar’, avalia Eduardo Mota, coordenador do Centro de Direitos Humanos de Goiás.
Maria Madalena Patrício, que trabalha com moradores de rua há 30 anos, defende uma ação policial integrada. ‘É uma questão muito grave, a  Polícia Federal precisa ajudar a resolver o que está acontecendo em Goiás’”.

REPORTAGEM DO FANTÁTICO SOBRE OS ASSASSINATOS DE MORADORES DE RUA AQUI

Mas barbárie:

PMs são presos suspeitos de envolvimento em mortes de jovens em SP


Fonte: Blog Educar sem Violência. Cida Alves. 2013.

7 de abr. de 2013

Dois moradores de rua, um deles adolescente, são mortos em Goiânia


Vítimas foram assassinadas a pauladas na madrugada deste sábado (6).
Grande Goiânia registra 27 pessoas sem-teto mortas em oito meses.

Dois moradores de rua, sendo um deles uma criança de aproximadamente 11 anos, foram mortos a pauladas na madrugada desde sábado (6), no Setor Rodoviário, em Goiânia. Com esse caso, sobe para 27 o número de pessoas em situação de rua assassinadas na Região Metropolitana, nos últimos oito meses.
Os corpos foram encontrados na calçada de um comércio, na rua Damiana da Cunha. Segundo a Polícia Militar (PM), testemunhas viram quando três homens chegaram em um carro para cobrar uma dívida e, em seguida, teriam praticado o crime.
Para o aspirante da PM Anderson Nascimento, o homicídio foi um acerto de contas envolvendo o tráfico de drogas. "No momento do fato eles estavam usando entorpecentes. Cobraram essa dívida e, posteriormente, deferiram algumas pauladas na cabeça das vítimas", diz o militar.
As vítimas foram levadas para o IML e ainda não foram identificadas.
Facadas
Na última quarta-feira (3), um homem que vivia nas ruas foi assassinado a facadas no Setor Norte Ferroviário. Segundo a polícia, o crime teria sido cometido por outros sem-teto, por causa de uma dívida de drogas no valor de R$ 600. Antes de ser morto, ele sofreu agressões com socos e pauladas. Um dos três suspeitos de envolvimento no crime está preso.

Na segunda-feira (1º), outro homicídio, de forma parecida, ocorreu em um local bem próximo ao crime de quarta-feira. Na Praça do Trabalhador, um homem foi esfaqueado após discutir com um usuário de drogas da região. A vítima não portava nenhum tipo de documento. No entanto, a polícia não confirmou se o rapaz era ou não morador de rua.
Vídeo mostra execução de morador de rua em Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)
Homem aparece da mesma foram em vídeos de
diferentes execuções (Reprodução/TV Anhanguera)
Série de mortes
A sequência de mortes envolvendo moradores de rua em Goiânia começou no dia 12 de agosto do ano passando, quando um jovem de 22 anos foi morto com três tiros, na esquina da Avenida Independência com a Rua 68, no Centro. Usuário de drogas, ele teria sido morto por um soldado da Polícia Militar, que foi preso.

Com o caso deste domingo, a capital soma 26 pessoas sem-teto mortas mortas. Há ainda um registro em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana.

Desde o início da escalada de violência, a Polícia Civil descarta a possibilidade dos crimes estarem relacionados. No entanto, em duas execussões, câmeras de segurança filmaram o momento em que um homem, aparentemente o mesmo, atira e mata pessoas que dormiam em calçadas da capital. O suspeito ainda não foi identificado.

Quando o elevado número de mortes de pessoas em situação de rua chamou a atenção da população, a polícia prometeu intensificar as ações para coibir os assassinatos. Entre as medidas adotadas estavam uma força-tarefa para a resolução dos crimes, o mapeamento dos locais onde eles ocorreram e o monitoramento das áreas com maior incidência. No entanto, o número de assassintos aumenta continua aumentando.
Fonte: G1. Globo/Goiás. 2013. Disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2013/04/dois-moradores-de-rua-um-deles-adolescente-sao-mortos-em-goiania.html. Acesso em: 07 abr. 2013.



4 de abr. de 2013

Os Cinco Olhos do Diabo: os castigos corporais nas escolas do século XIX


Estimado (a) Leitor (a),
Compartilho com você o artigo de Daniel Cavalcanti de Albuquerque Lemos, “Cinco olhos do diabo”, que discute o uso dos castigos corporais nas escolas do século XIX.

Cinco olhos do diabo
“O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo.Era só levantar a mão, dependurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca” (Assis, 1959, p. 534).


Daniel Cavalcanti de Albuquerque Lemos

RESUMO – Os Cinco Olhos do Diabo: os castigos corporais nas escolas do século XIX. O presente trabalho analisa a prática de castigos corporais nas escolas primárias da Corte, investigando-a como forma de disciplinar, constituir e consolidar uma determinada cultura escolar, aqui entendida como um conjunto de normas, posturas e condutas impostas aos jovens, como forma de se obter uma disciplinarização do corpo e do espírito. A Palmatória, foi um objeto que assim como o livro, o quadro, a pena, marcou sua presença na escola e no imaginário da sociedade sobre a escola. Ao ponto de serem retratadas na literatura da época. Analiso fontes que demonstram os rumos da discussão acerca dos castigos corporais, os limites da autoridade do professor e a intervenção da sociedade nesse debate.
Palavras-chave: Castigos Corporais. Disciplinarização. História da Educação.

Acesse o artigo completo AQUI

REFERÊNCIA:

ASSIS, Joaquim Machado de. Conto de Escola. In: ASSIS, Joaquim Machado de. Obra Completa, v. 2. Rio de Janeiro: Aguilar, 1959. P. 532-537.

Fonte: Blog Educar sem Violência. Cida Alves. 2013. Disponível em: http://toleranciaecontentamento.blogspot.com.br/. Acesso em: 04 abr. 2013.

2 de abr. de 2013

A influência de crenças religiosas na imagem negativa da criança


Estimado(a) Leitor(a),
Compartilho com você um fragmento do capítulo “A VIOLÊNCIA FÍSICA E A SOCIALIZAÇÃO DAS NOVAS GERAÇÕES” de minha dissertação (SILVA, 2008) em que discuto a influência de crenças religiosas na construção de uma imagem negativa da criança que justificam a prática de violências contra o seu corpo.

 


A história da criança tem sido também a história de um mundo de violência perpetrada contra ela na forma de escravidão, abandonos, mutilações, filicídios e espancamentos.
Viviane Guerra.

 

 

A violência física contra crianças, além de ser utilizada como um método de controle populacional/natalidade, seleção racial e manutenção da aparente moral religiosa, podia ter uma função litúrgica em sacrifícios místico-religiosos. As práticas rituais de mutilação do corpo da criança ou sacrifício de suas vidas são exemplos dessa prática mística. Para Mott (1993), as manifestações de ataque ou extermínio ao corpo infantil por razões eminentemente religiosas eram menos freqüentes. No infanticídio, ritual da antigüidade, as crianças eram executadas, na maioria das vezes, por meio do apunhalamento ou do holocausto no fogo.


O primeiro registro encontrado da prática do infanticídio ritual data de 4000 a.C. na região da antiga Suméria. No ritual sumeriano, os recém-nascidos eram sacrificados em reverência ao deus Anu. Por volta de 2000 a 1500 anos antes de Cristo, segundo os sumerianos, o deus Moloch (ou Molek) somente se acalmava quando era homenageado com o sacrifício ritual de criancinhas inocentes. Para o deus Javé, divindade inspirada em Moloch, o sacrifício dos primogênitos humanos foi substituído pelas primícias ou pelo holocausto de animais. Em Israel, o frustrado sacrifício de Isaac por Abraão e o efetivo holocausto da filha de Jefté demonstram como estavam presentes nos primórdios da matriz religiosa cristã os infanticídios ritualísticos (MOTT, 1993).

Mott (1993) destaca que a prática do infanticídio foi registrada também em outras áreas, como: Mesopotâmia, Síria, Fenícia, Cananéia e terra dos moabitas, Egito, China, Índia e entre os primeiros habitantes bárbaros da Escócia e Rússia. Os estudos antropológicos das sociedades primitivas também localizaram a prática do infanticídio ritual entre os esquimós, na Polinésia, no Taiti e Havaí, nos aborígines da Austrália e nos Ibo da África Ocidental, nas tribos pina do Arizona e da Carolina do Norte, nos guaicuru do Brasil Central e maias.

Para compreender melhor as razões do infanticídio ritual, é fundamental reportar-se à idéia de que o Criador é proprietário de todas as criaturas, afirma Mott (1993). Na bíblia, no Êxodo, essa idéia está expressa claramente: “Todo primogênito me pertence, disse o Senhor” (apud MOTT, 1993, p. 122). A autoridade divina exige, em sua reverência, o que os humanos mais esperam e estimam: a vida dos primogênitos humanos, os animais e as primícias da agricultura. Paradoxalmente, ao sacrificar a vida da criança ou mutilar os seus corpos, os humanos revelavam uma valoração positivo da criança, pois só poderia ser ofertado às divindades aquilo que era considerado precioso, estimado e puro.

Em outras interpretações teológicas, ao contrário, postulam-se a idéia de que os recém-nascidos são imperfeitos, presas do espírito do mal (MOTT, 1993), ou seja, está subjacente uma valoração negativa da criança. Nessas vertentes teológicas, as crianças são impuras, e só podem integrar à comunidade dos filhos de Deus quando submetidas aos rituais purificatórios. Certas seitas heterodoxas justificam a prática do infanticídio ritualístico como uma solução para afastar certos capetinhas do rebanho dos santos, pois essas crianças ameaçam poluir a comunidade dos eleitos.
Para Gimeno Sacristán (2005), a tradição cristã que percebe a criança como a corporificação do mal tem como principal referência teórica o quarto livro Esdras, que foi escrito por um judeu, um século depois de Cristo. Nesse livro, que teve uma importante divulgação entre os cristãos, Adão aparece como o responsável pela queda de toda raça humana e legou a toda sua descendência a semente do pecado. Essa doutrina foi difundida por Santo Agostinho, que antes de sua conversão era maniqueísta. De acordo com essa vertente do cristianismo, a prática do batismo tem como objetivo primordial liberar as crianças desse pecado original herdado. Mott (1993) lembra que na tradição católica“o ritual do batizado incluía o exorcismo, acreditando-se que antes de ser lavada pela água sacramental, a criancinha era presa de Satanás” (p. 124).

Do pecado de origem, surge o desequilibro do ser humano, assim um conflito estabelece-se entre duas dimensões: a carne (o corpo), que simboliza as tendências que expõem a pessoa ao mal, os apetites em busca de prazeres e satisfações e oespírito (a alma), que representa a razão iluminadora da justa vontade que a distancia do pecado e a aproxima de Deus (SACRISTÁN, 2005). A pedagogia, a disciplina rigorosa e quase sempre violenta, constitui-se, nessa abordagem religiosa, uma importante ferramenta para assegurar o predomínio do espírito sobre carne. As punições físicas são utilizados a fim de promover a renúncia às satisfações dos prazeres e às necessidades do corpo. A encíclica Divini illus magistri, publicada por Pio XI em 1929, deixa recomendações aos educadores:

A estupidez está ligada ao coração do jovem; a vara da correção a distanciará dele. Portanto, é preciso corrigir as inclinações desordenadas, fomentar e ordenar as boas, desde a mais tenra infância e, sobretudo, é preciso iluminar com verdades sobrenaturais e os meios da Graça, sem a qual não é possível dominar as perversas inclinações nem alcançar a devida perfeição moral (...). Por isso mesmo, todo naturalismo pedagógico é falso [...], e é errôneo todo método de educação que se funda, em todo ou em parte sobre a negação e o esquecimento do pecado original e da Graça e, portanto sobre as formas solitárias da natureza humana (apud SACRISTÁN, 2005, p. 90).

Essa concepção da natureza humana marca uma espécie de antropologia negativa que justifica as atitudes precavidas e as práticas repressivas contra o mal. Tal tradição vê com receio, quando não terror, a natureza irrefreável que as crianças expressam ocasionalmente. A idéia de que o homem nasce marcado pela culpa coletiva do pecado original de Adão e a visão maniqueísta sobre a maldade natural do homem contribuíram para perpetuar a crença de que na criança existe algo maligno contra o qual é preciso sempre se prevenir.

A crença na maldade das crianças legitimou durante muito tempo o tratamento distante, duro e agressivo destinado a elas. Na unidade familiar os maus-tratos, a rudeza e o castigo foram justificados como benéficos para crianças e jovens. Muito ditados populares ilustram essa forma de conceber a criança, como os que dizem: “Não quer bem seu filho quem diminui seu castigo; As crianças devem ser disciplinadas quando ainda pequenas, porque depois não há castigo para elas; Amor de criança, água em cesto; Quem te quer bem te fará chorar, e quem te que mal, rir e cantar; Aprenda chorando; rirá ganhando; Aprender é amargura, o fruto é doçura”(apud SACRISTÁN 2005, p. 87).


REFERÊNCIA:

SILVA, Maria Aparecida A. da. A violência física intrafamiliar como método educativo punitivo disciplinar e os saberes docentes. 2008. 224 p. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2008. In. Blog Educar sem Violência. Cida Alves. 2013. Disponível em: http://toleranciaecontentamento.blogspot.com.br/. Acesso em: 02 abr. 2013.

31 de mar. de 2013

LIBERDADE - Fernando Pessoa















Ai que prazer

Não cumprir um dever, 
Ter um livro pra ler
 
E não o fazer!
 Ler é maçada. 
Estudar é nada.
 
O sol doira

Sem literatura

O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original.
 
E a brisa, essa,
 
De tão naturalmente matinal,
 
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta
 
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
 
Esperar por Dom Sebastião,
 
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo, 
Que não sabia de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

Fonte: Blog Educar sem Violência. Cida Alves. 2013. Disponível em: http://educarsemviolenciacriticas.blogspot.com.br/2011/01/liberdade-fernando-pessoa.html. Acesso em: 31 mar. 2013.

28 de mar. de 2013

Alunos jogam lixeira em professora na Grande SP


Agressão aconteceu em Franco da Rocha.
Dirigente regional de ensino diz que estudantes serão punidos.


Uma professora foi agredida por alunos de uma escola estadual de Franco da Rocha, na Grande São Paulo. Na segunda-feira (25), estudantes apagaram a luz da sala de aula e jogaram uma lixeira que acertou o olho da professora de sociologia e filosofia Maria de Fátima.
A agressão aconteceu na Escola Estadual Zilton Bicudo. "Quando eu estava saindo, próximo da porta já, as luzes apagaram e a lixeira veio na minha direção", disse a professora. "Na hora eu senti muita dor, não consegui enxergar nada, deu um desespero."

A Secretaria de Estado da Educação não permitiu a entrada da reportagem da TV Globo na escola. O quadro de luz que foi quebrado e desligado fica no fim de um dos corredores internos. Essa não foi a primeira vez que os alunos provocaram um apagão.

Segundo o dirigente regional de ensino Celso Nicoleti, haverá punição aos envolvidos. “É inadmissível que ocorra um fato como esse dentro de uma unidade escolar. Todos os procedimentos relacionados à apuração dos fatos ocorrerão”.
A Delegacia de Ensino abriu um procedimento disciplinar. Além disso, segundo Nicoleti, o colégio está convocando o conselho de escola, formado por professores, alunos, pais e funcionários para que tome providências. “Pode ocorrer uma suspensão ao aluno ou até mesmo uma transferência compulsória”.
Para Nicoleti, é importante a participação da família junto à unidade escolar para que o caso não se repita. “A família tem o papel de acompanhar o desempenho dos alunos”.
Fonte: G1, São Paulo. 2013. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/03/alunos-jogam-lixeira-em-professora-na-grande-sp.html. Acesso em: 28 mar. 2013.