29 de nov de 2015

O impacto das práticas violentas

Acredito que um dos maiores desafios é encontrar  “Caminhos do cuidado e da prevenção das violências na primeira infância”. 











* Créditos imagens, Blog Educar sem Violência, Cida Alves. Disponível em: http://toleranciaecontentamento.blogspot.com.br/. Acesso em: 29 nov. 2015.


28 de out de 2015

Operação da Polícia Federal combate crimes de pedofilia em Belém

Estão sendo cumpridos cinco mandados de busca e apreensão.
Crime mais grave seria a transmissão de conteúdo pornográfico na internet.

Do G1 PA
Uma operação de combate a crimes de pedofilia pela internet foi deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quarta-feira (28), na Grande Belém. Denominada de “Temeluche”, uma referência a um anjo protetor das crianças, a operação conta com a ação de 25 policiais federais.
No total, estão sendo cumpridos cinco mandados de busca e apreensão em endereços da Grande Belém. De acordo com o delegado Eduardo Jorge, no início da manhã duas pessoas já foram presas. Elas foram flagradas com conteúdo pornográfico envolvendo crianças e adolescentes.
Segundo a PF, o crime mais grave se caracteriza com a transmissão de conteúdo pornográfico envolvendo crianças e adolescentes pela rede mundial de computadores. Uma vez que este conteúdo é encontrado nos computadores dos investigados, a prisão em flagrante é formalizada.
Fonte: G1 Pará. < http://g1.globo.com/pa/para/noticia/2015/10/operacao-da-policia-federal-combate-crimes-de-pedofilia-em-belem.html>. Acesso em: 28 out. 2015.

12 de out de 2015

Do que uma criança precisa de verdade? Fernanda Furia


As memórias de experiências amorosos e de grandes contentamentos são como asas de anjos, são elas que verdadeiramente nos protegem nos momentos de desespero.
Cida Alves

Bansky-Hope-4

Vinte anos atuando como psicóloga de crianças e de adolescentes. Quatro anos como mãe. Já vi e ouvi muitas coisas…

Mesmo assim, tenho ficado intrigada com um frequente comentário que muitas mães e pais de crianças pequenas têm feito atualmente.

“Meu filho precisa sentir desde cedo que a vida é difícil”.

De fato a vida é difícil. Para alguns mais… Para outros menos.
Todos nós, em algum momento da vida, seremos arremessados em um oceano de problemas e de situações sofridas.

E serão nestas situações que precisaremos acessar dentro de nós algo precioso e muito poderoso: experiências positivas vividas na infância.

Lembranças impossíveis de serem lembradas. Mas possíveis de serem sentidas.
Bebês e crianças precisam vivenciar com regularidade momentos gostososMomentos que nutrem a alma em níveis profundos.

E que ficarão registrados para sempre. Como tatuagens na alma.
Eles serão as chaves para acionar a garra de viver necessária para superar as dores da vida.

Você deve estar se perguntando: Mas, que tipo de momentos são estes?
São os momentos em que a criança é atendida adequadamente nas suas necessidades. Sem muitas faltas nem grandes excessos.

Ser aquecida no momento certo. Ser alimentada sempre que necessário. Ser confortada com a voz calma da pessoa que cuida. Sentir o toque gostoso de quem a ama. Ser compreendida. Ser protegida. Ser corrigida. Sentir os limites do que é certo e errado. Ser respeitada nas suas diferentes emoções. Poder se encantar.Brincar livremente. Se divertir. Aprender brincando. Ver seus pais se divertindo também. Sentir o tempo sem tanta pressa.

Muitos pais e mães podem pensar: “Mas essa vida é muito boa! Desse jeito meu filho não estará preparado para enfrentar as dificuldades da vida quando ele crescer!”

Calma.
Você já parou para pensar que mesmo vivenciando todos estes momentos gostosos, ainda assim o seu filho já passa por algumas dores profundas?

Quando ele ganha um irmãozinho e perde a atenção exclusiva por ser filho único, quando ele se dá conta de que os seus pais não estão disponíveis para ele o tempo todo, quando um amiguinho prefere brincar com outro amigo, quando morre o seu bichinho de estimação, quando ele muda de escola ou ainda quando a sua avó preferida se vai… E junto se vão as comidinhas deliciosas, o colo aconchegante e a sensação de que na casa da vovó tudo pode….

Em tempos de profundas transformações no mundo, nossas crianças não precisam de tantas aulas de inglês, de tantos esportes, de tantos deveres de casa, de tanto conteúdo escolar, de tantas manhãs de sono interrompidas por horários escolares prematuros, de alfabetização precoce e nem de tantas expectativas por parte de nós, adultos.

Nossas crianças precisam, mais do que nunca, de momentos gostosos que possam nutrir as suas almas.
Precisam rechear seus bancos de dados internos com muitas experiências positivas de vida.

São estas experiências que darão à criança a capacidade de acreditar.
Acreditar que a dor vai passar, que ela pode confiar nas pessoas, que pode receber ajuda, que o mundo pode ser melhor e que um pouco de magia ainda existe…
Aí sim, quando a vida desafiar o seu filho de verdade, ele terá de onde tirar forças para enfrentar, resistir e se reinventar.

Eu, aos 40 anos de idade, já tinha perdido o meu irmão ainda na minha adolescência, todos os meus avós por diferentes razões, meu pai por uma doença brutal, meu sogro por um infarto fatal e minha mãe pela deterioração causada pela doença de Parkinson.

Ao longo desta jornada inominável fui buscar nas minhas vivências e brincadeiras de criança a força necessária para cuidar do meu filho ainda bebê e para me recriar profissionalmente.

A dureza da vida pode sim nos fortalecer. Mas são os momentos gostosos armazenados nos nossos poros que nos permitem enxergar esperança na dor.

É disso que as nossas crianças precisam de verdade.

Fernanda Furia

Colaboração: Izabela Severo Garcia, em 24 de setembro de 2015.

Fonte: Blog Educar sem Violencia. Cida Alves. Acesso em: 12 out. 2015.

7 de set de 2015

David Lucas de Sousa Freitas Pires e Aylan Kurdi, por vocês minhas lágrimas desceram as nascentes do Cerrado para enfim chegar ao gelado mar de Ali Hoca Burnu


Muito Avesso
Tudo ao contrário
Areia fria como o último leito do sono de um menino
Brutal ataque ao corpo de um pequeno indefeso
Queria ter oferecido meu colo e minha respiração como embalo
Queria ter oferecido meu leite e meu olhar de espanto por tanto beleza
Agora só posso oferecer meu choro
Entretanto, não será choro miúdo de lagrimas contidas
Será o choro enlouquecido das mulheres do oriente
Que aos gritos lamentam a perda de seus filhos
David Lucas de Sousa Freitas Pires e Aylan Kurdi
Pela partida de vocês minhas lágrimas desceram as nascentes do Cerrado
Para enfim chegar ao gelado mar de Ali Hoca Burnu


Cida Alves






Muy Avesso
Todo al revés
Arena fría como el último lecho del niño dormido
Brutal ataque al cuerpo de un pequeño indefenso
Hubiera gustado haber ofrecido mi regazo y mi respiración para empacarlos
Hubiera gustado haber ofrecido mi leche y mi mirada de asombro por tan gran belleza de vosotros
Ahora sólo puedo ofrecer mi llanto
Sin embargo, no sera un llanto timido con lágrimas contenidas
Será un llanto enloquecido igual de las mujeres orientales
que lloran a los gritos por la pérdida de sus hijos
David Lucas de Sousa Freitas Pires y Aylan Kurdi
Por la muerte de vosotros mis lágrimas han de salir de la fuente del Cerrado
Para finalmente llegar al mar helado de Ali Hoca Burnu











Fotos: 
Bebê David Lucas morreu após ser espancado (Foto: Reprodução/ TV Anhanguera)

IMAGE: Last photo of Syrian child Aylan Kurdi alive, whose death at sea sparked global outrage.

Fonte: Blog Educar sem Violência. Cida Alves. Acesso em: 07 set. 2015. 

23 de ago de 2015

Aborto de “bandidos” no útero: Ou como o poço não tem fundo no Brasil - Leonardo Sakamoto

“Um dia, nós chegaremos a um estágio no qual seremos capazes de determinar se a criança no útero da mãe tem tendências criminais e, se sim, a mãe não será autorizada a dar à luz.''
A declaração teria sido por Laerte Bessa (PR-DF), relator do projeto de redução da maioridade penal, ao jornal inglês The Guardian e resgatada pela revista Fórum, no melhor estilo Minority Report – aquele filme em que Tom Cruise prende os bandidos antes deles cometerem os crimes. Uma outra declaração dada por ao jornal afirma que, em duas décadas, reduziremos a maioridade para 12 anos.
Em nota divulgada por sua assessoria de imprensa, ele disse que não falou em aborto e que a matéria escrita em inglês “ganhou interpretações erradas''.
Mas, vejamos: recebi, meses atrás, uma doce mensagem de leitor dizendo que “mãe de bandido deveria ser esterilizada''.

Não fiquei chocado porque, depois da popularização da internet, nada me choca. Ok, talvez Datena como possível candidato à prefeitura de São Paulo mas, fora isso, nada. O pior é que se perguntar para o missivista se é a favor de garantir às mulheres a autonomia sobre o próprio corpo, ele cospe na sua cara.
Daí, tentando seguir essa linha de pensamento ignorante e imbecil, ironizei o comentário do leitor, em um post em abril deste ano:
“Talvez seja essa a saída e não a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos: Esterilizar úteros que pariram criminosos de forma a interromper o terreno fértil para crimes. Ou, talvez, se nossa ciência permitir, descobrir com cálculos precisos os úteros ruins e impedir que deles brote algo.''
Um amigo jornalista, que leu o post na época, me alertou para tomar cuidado com textos ficcionais que forçavam a barra. “Tá louco, Saka? Quem toparia uma aberração dessas? Não viaja…''
Rá!

Isso ensina uma lição, meu caro amigo: Pense no pior filme B de terror? Ele não se compara à realidade brasileira.
Escrevi naquele post também que, conhecendo nossa sociedade, os “úteros ruins'' passíveis de aborto forçado não serão úteros ricos, que sempre tiveram acesso a tudo e que repousam em lençóis de algodão egípcio – mesmo que de alguns deles tenha brotado os que põem fogo em indígenas em pontos de ônibus, espancam pessoas em situação de rua ou atropelam ciclistas.
Mas úteros negros e pardos, que lavam roupa, fazem faxina e não raro criam os filhos sozinhos. Úteros que andam de ônibus, ganham uma miséria, dividem-se entre o trabalho e a família. E, por isso, não vivem, apenas sobrevivem, enfileirando dias e noites, na periferia de alguma grande cidade.
Depois desse episódio profético, se eu fosse você, acreditaria no alerta que venho fazendo há tempos: com esse Congresso Nacional, nada está a salvo. Nem o direito das mulheres ao voto, nem a República, muito menos a Lei Áurea.


Fonte: Blog do Sakamoto. In: Blog Educars sem Violência. Cida Alves. Acesso em: 23 ago. 2015. 

18 de ago de 2015

Pastor afirma que estuprou menino pela 'glória de Deus', diz delegado

Homem é tio-avô da criança e já ficou preso 14 anos por outro estupro. Segundo Reginaldo Salomão, suspeito não demonstrou arrependimento.


Do G1 MS com informações da TV Morena

O homem de 52 anos, preso suspeito de estuprar um menino em troca de videogame e chinelo, em Campo Grande, disse à polícia que é pastor evangélico e que estupro pela 'glória de Deus', segundo o delegado Reginaldo Salomão, da Polícia Civil. O estupro foi na tarde, na casa da avó da vítima no bairro Buriti, região oeste da cidade.
"Ele confessou o crime alegando que é um pastor e que fez isso pela glória de Deus, mas exerceu direito ao silêncio no tocante à detalhes, porquê fez, como fez, se a versão apresentada pelo menino é a que realmente aconteceu", explicou. 

No dia do estupro, o menino foi deixado na casa do irmão da avó dele pelos pais, que foram trabalhar. Um primo dele viu o estupro e avisou aos familiares, que chamaram a polícia, por volta das 21h (de MS). Os policiais foram à casa onde o crime aconteceu e encontraram o homem, que confessou o estupro e foi autuado em flagrante. 
A criança passou por exame de corpo de delito, que confirmou o estupro. Salomão disse que o suspeito não demonstrou arrependimento e que o pastor já foi preso pelo mesmo crime. Ele estava em liberdade condicional desde agosto de 2014 e tinha ficado 14 anos preso por esse crime.
De acordo com a autoridade policial, o homem estava em livramento condicional desde agosto de 2014. Antes disso, ele cumpria pena em regime fechado também pelo crime de estupro contra um menino da mesma idade da vítima.
Fonte: http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2015/08/pastor-afirma-que-estuprou-menino-pela-gloria-de-deus-diz-delegado.html. Acesso em: 18 agos. 2015.

21 de jun de 2015

Violência: quem lucra, quem morre - Celso Vicenzi


150618-Violência
Um adolescente é assassinado a cada hora: 24 por dia, 42 mil até 2019. Excelente negócio para a indústria armamentista, que elegeu 21 deputados no último pleito

Por Celso Vicenzi
A violência toma conta das cidades. É o que se ouve, é o que se vê, é o que se lê, cada vez mais, nos principais veículos de comunicação. A tese não é equivocada, apenas é incompleta e mal explicada. Não faltam evidências empíricas, no dia a dia dos brasileiros, para concluí-la verdadeira. Tampouco as pesquisas e os estudos desmentem o que a mídia esforça-se por ampliar: a sensação de insegurança, de viver num cenário de permanente violência.
Somos, sim, um país violento. E não é caso recente. A população indígena foi praticamente dizimada no contato com portugueses e outros povos europeus, no início da colonização. Fomos o penúltimo país a acabar com a escravidão. Chegamos ao século 21 entre as cinco nações mais desiguais do planeta. E, até hoje, a tortura tem sido largamente empregada por forças policiais no dia a dia das delegacias e penitenciárias.
Somos um país de subclasses, em que uma parcela da sociedade sente prazer em se diferenciar de seus semelhantes e de submetê-los a constantes humilhações. Boa parte galga postos importantes pela via de apadrinhamentos, mas sente-se confortável em defender a meritocracia. É o país que tem o maior número de dentistas do planeta, mas mais da metade da população não faz consultas anuais a esses profissionais, enquanto 11% dos que têm mais de 18 anos já perderam todos os dentes, índice que, entre os acima de 60 anos chega a 41,5%. A violência está presente no cotidiano da maioria da população, que não tem acesso a saneamento básico, a saúde, educação e moradia de qualidade. No entanto, a família, a escola, a mídia não costumam arrolar como violência as formas mais perversas de opressão e exclusão de milhões de seres humanos.
Mesmo que o foco seja apenas a violência praticada por arma branca ou de fogo, em roubos, assaltos e sequestros – com ou sem homicídio –, é preciso conferir melhor os dados. O senso comum aponta, principalmente, para a violência cometida por indivíduos de 19 cidades entre as 50 mais violentas do mundo asse social baixa, analfabetos – ou quase –, jovens, geralmente negros. São “eles” os violentos. Ganha força no debate público, também, a situação “insustentável” em relação à violência praticada por menores de idade – como reverberam, todos os dias, emissoras de rádio e tevê, jornais e as redes sociais.
A proposta de redução da maioridade penal, que vários estudos não cansam de demonstrar como proposta ineficiente para combater o crime, poderia ser vista, também, de outra forma. Trata-se, no caso, de condenar duplamente quem já foi punido, desde o nascimento, por uma sociedade que não oferece educação, saúde, moradia e salário digno para a maioria da população. Que exclui e não ampara a maior parte dos brasileiros no acesso à renda, num país que, longe de ser pobre, está entre as dez maiores economias do mundo. Ou seja, nesse sentimento de vingança, a sociedade quer punir quem ela abandona e oprime.
Somos um país onde um adolescente é assassinado a cada hora, 24 por dia. Se continuarmos com essa política de tentar resolver somente pela repressão, sem nenhum sucesso até aqui, serão 42 mil adolescentes mortos até 2019, conforme cálculos de Gary Stahl, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil. Os jovens são 29% da população, mas concentram a metade das mortes por arma de fogo.
O fracasso dessa política com foco na 19 cidades entre as 50 mais violentas do mundo repressão pode ser demonstrado por um dado da Secretaria Nacional da Juventude, que apontava, em 2012, um crescimento de 74% da população carcerária nos últimos sete anos, sem que houvesse melhora significativa nos índices de contenção da criminalidade. A maioria dos delitos que ocupa boa parte do sistema de justiça do país é de crimes relacionados ao patrimônio e drogas. Crimes de pequeno porte, porque os criminosos de colarinho branco e os grandes traficantes – alguns deles certamente escondidos em cargos acima de quaisquer suspeitas – dificilmente irão para a prisão e jamais para aquelas que amontoam seres humanos como animais.
Somos o segundo país – atrás apenas da Nigéria – quando o assunto é assassinato de adolescentes. Entre 2006 e 2012 foram 33 mil homicídios. Estamos assassinando o nosso futuro. E como escreveu Gil Alessi, no El País, “os homicídios cometidos à bala no Brasil têm cor, idade e sexo”.
Um estudo do Programa de Redução da Violência Letal contra Adolescentes e Jovens, uma iniciativa coordenada pelo 19 cidades entre as 50 mais violentas do mundo Observatório de Favelas, realizada em conjunto com o Unicef, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e o Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostrou que os adolescentes entre 12 e 18 anos têm quase 12 vezes mais probabilidade de ser assassinados do que as meninas dessa mesma faixa etária. Os adolescentes negros têm quase três vezes mais chance de morrer assassinados do que os brancos – geralmente por arma de fogo.
Ao mesmo tempo, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados em 2013 revelam que a polícia brasileira mata, em média, cinco pessoas por dia. É uma das polícias mais violentas do mundo. Somente no estado de São Paulo, entre 2005 e 2009, a PM matou 6% mais que todas as polícias dos EUA juntas. O Brasil aparece com 19 cidades entre as 50 mais violentas do mundo, segundo estudo de uma ONG mexicana. No Brasil, mata-se mais do que em regiões em guerra. Segundo a Anistia Internacional, são cerca de 56 mil homicídios por ano. Menos de 10% desses casos são esclarecidos.
A violência também é encarada por empresas como um excelente negócio. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública calcula que os custos com violência no país chegam a R$ 258 bilhões. Os sistemas de segurança pública e privada investem, cada vez mais, na compra de armamentos e equipamentos de prevenção, defesa e combate. Cresce o uso de carros blindados pelas classes A e B. O Brasil tem hoje quase três vezes mais vigilantes privados do que policiais civis, militares, federais e bombeiros. Idem em relação às forças armadas.
A indústria de armas e munições elegeu, no último pleito, 70% dos candidatos que receberam doações legais de campanha. Dos 30 candidatos beneficiados pelo setor, 21 saíram vitoriosos: 14 deputados federais e sete estaduais. Esses fabricantes, cada vez mais ativos, financiaram políticos de 12 partidos em 15 estados – a maioria do PMDB e do DEM do Rio Grande do Sul e de São Paulo.
Somos um país que viola direitos humanos. Há uma superlotação das prisões. Torturas e maus-tratos são comuns. Não punimos os crimes da ditadura (ao contrário de países vizinhos) e a impunidade costuma ser a norma diante dos excessos da polícia violenta. Índios, negros e mulheres costumam ser vítimas da falta de políticas públicas que combatam o preconceito, a discriminação e o ódio, que se torna ainda mais flagrante contra a comunidade LGBT.
A mídia, por meio de programas policiais sensacionalistas ou reportagens que não primam por um mínimo de isenção e qualidade, com distorção de fatos, enfoques e estudos, contribui para que se crie na sociedade um sentimento de “prende-lincha-mata”, como se o ódio e a vingança pudessem levar a algum tipo de solução. A inexistência de um debate mais qualificado nos veículos de comunicação favorece o oportunismo dos setores mais violentos da sociedade e amplia o espaço para a apresentação de propostas demagógicas, já comprovadamente ineficazes.
Por isso, mais do que repensar uma política de segurança para o país, é preciso tentar compreender que tipo de sociedade nos tornamos. Sem menosprezar a dor de quem é vítima da violência, é preciso perguntar de que forma estamos contribuindo para perpetuar os mecanismos que a impulsionam, por omissão ou adesão a um modelo de sociedade injusto, opressivo e excludente. Se não formos capazes de enxergar que os grupos sociais apontados como agressores e violentos são os primeiros a serem violentados, dificilmente haverá possibilidade de sonhar com um país em que a igualdade, o respeito, a ressocialização, a educação e a formação de cada cidadão se transforme na melhor arma para combater a violência.
Basta de violência, sim! Mas de qual violência estamos falando? Violência contra quem?


Fonte: Blog da Redação, publicado em 18 de junho de 2015. In. Blog Educar sem Violência. Cida Alves. Acesso em: 21 jun. 2015.