27 de nov de 2013

Pesquisa aponta fortes indícios de que ser vítima de punição corporal, quando criança, estimule o uso deste tipo de punição quando adulto(a), sugerindo um ciclo perverso de uso de força física.


O Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), lançou a “Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar sobre Atitudes, Normas Culturais e Valores em Relação à Violação de Direitos Humanos e Violência – Um Estudo em 11 Capitais de Estado”
Entre outros dados o sumário apresenta:
A maioria dos entrevistados, tanto em 2010(70,5%) como em 1999 (79,6%), revelou ter apanhado quando criança. A punição física regular (quase todos os dias ou uma vez por semana) atingiu, em 2010, 20,2% dos entrevistados, ou seja, 1 em cada 5 entrevistados relatou ter apanhado regularmente quando criança.
Há forte evidencia que ter sido vítima de punição física quando criança pode redundar em um círculo vicioso no uso da violência sobre os filhos. Assim, os procedimentos adotados por uma geração podem afetar o modo como as próximas gerações serão tratadas.
Tanto em 1999 como em 2010, aqueles que responderam ter apanhado quando criança, se diferenciam dos que relatam não terem apanhado. Aqueles que relataram ter apanhado muito quando criança são os que mais escolhem a opção “bater muito” em seus filhos caso estes apresentassem mau comportamentos. São também os que mais esperariam que seu filho(a) respondesse com violência caso fosse vítima de uma agressão física na escola. Há fortes indícios de que ser vítima de punição corporal, quando criança, estimule o uso deste tipo de punição quando adulto(a), sugerindo um ciclo perverso de uso de força física.
Fica evidente a necessidade de enfrentarmos a banalização do uso dos castigos corporais e tratamento cruel e degradante contra crianças e adolescentes, não só para garantir a integridade física e psicológica, mas também para a construção de uma sociedade menos violenta.
O sumário completo pode ser obtido em:http://www.nevusp.org/downloads/down263a.pdf
Fonte: Rede Não Bata, Eduque!. 2013. Disponível em: <http://naobataeduque.tumblr.com/>. Acesso em: 27 nov. 2013. 

24 de nov de 2013

Violência doméstica e/ou familiar: um grave problema a ser enfrentado

O Dossiê Criança & Adolescente 2012, elaborado pelo ISP – Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, traz à tona o alarmante índice de violência doméstica e/ou familiar ao qual as crianças e os adolescentes estão expostos.
O documento apresenta análises sobre a série histórica 2005-2011. Por meio dos Registros de Ocorrência da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, chegou-se ao somatório de 151.751 ocorrências. Na publicação, estão registradas informações importantes sobre o número de homicídios, lesões corporais dolosas e culposas, ameaças, estupros e de adolescentes em conflito com a lei.
O dossiê aponta que 26.689 crianças e adolescentes até 17 anos (88,5%) foram vítimas de crimes contra a pessoa e a dignidade sexual, enquanto 3.466 adolescentes entre 12 e 17 anos (11%) cometeram algum ato infracional. Ele traz também um número alarmante de crianças e adolescentes vítimas de lesões culposas, apontando sua vulnerabilidade em ambientes que deveriam ser de cuidado e proteção.
A lesão corporal dolosa (aquela na qual o indivíduo ofende intencionalmente aintegridade física de outra pessoa) corresponde à maior parte dos delitos sofridos por crianças e adolescentes, chegando a 35,2% do total de casos registrados. A ameaça aparece em segundo lugar, com 16,2% de casos. Já a lesão corporal culposa vem em terceiro lugar, com 13,3% do total de vítimas e o estupro surge em quarto lugar, com 12,8% de vitimizados.
Gráfico 1destaca a incidência da violência doméstica ou familiar contra crianças e adolescentes na lesão corporal dolosa.
Gráfico 1 - Crianças e adolescentes vítimas de lesão corporal dolosa segundo tipo de lesão no Estado do Rio de Janeiro - 2011 - valores percentuais
Gráfico 2 demonstra que, tomando-se a relação entre a vítima e o autor da lesão dolosa em crianças e adolescentes, o agressor era desconhecido em apenas 26,6% dos casos. Em 19,5% dos casos, não havia informação sobre a relação entre vítima e agressor. Contudo, em mais da metade dos casos (53,9%),o autor era conhecido ou mantinha algum tipo de relação com a vítima. O agressor identificado como parente somou 20,8%, amizade/vizinhança, 14,9%, relações amorosas, 16,4%, e de trabalho, 0,5%.

Gráfico 2 - Provável relação entre autor e criança e adolescentes vítimas de lesão corporal dolosa no estado do Rio de Janeiro – 2011 – valores percentuais


 
A residência aparece como o local onde mais ocorreram lesões dolosas praticadas contra crianças e adolescentes, conforme apresentado no gráfico a seguir.
Gráfico 3 - Crianças e adolescentes vítimas de lesão corporal dolosa no Estado do Rio de Janeiro segundo o tipo local do fato - 2011 - valores percentuais
A ameaça ocupa o segundo lugar no número de ocorrências de violência contra crianças e adolescentes.
 Na maioria dos casos (55,3%), é possível dizer que a vítima conhecia o agressor, sendo que as relações de amizade e vizinhança chegaram a 20,3% do total. Já o percentual de vítimas que tinham vínculos amorosos ou afetivos com os agressores atingiu 19,1% dos casos. As relações de parentesco somaram 14,4%, enquanto as de trabalho e escola corresponderam a 0,8% e 0,7%, respectivamente. Das ameaças registradas, 45,4% ocorreram nas residências das crianças e dos adolescentes.
O estupro foi o quarto delito que mais atingiu as crianças e adolescentes em 2011, representando cerca de 12,8% dos crimes contra a pessoa ou a dignidade sexual envolvendo este segmento etário. Todavia, o que mais chama atenção é que o autor era conhecido em 55,9% dos casos, ou seja, este ato ocorreu principalmente entre os círculos de amizade ou parentesco das vítimas. Os casos de parentesco chegaram a somar 37,7% do total.
O diagnóstico apresentado espera contribuir para a formulação e a implementação de políticas públicas de segurança, que devem abranger áreas, tais como saúde, educação, esporte, geração de renda, visando à modificação do cenário atual na qual se encontram as crianças e os adolescentes, não só do estado do Rio de Janeiro, como de todo o Brasil.
Ao analisarmos os dados relatados, nós, da Rede Não Bata, Eduque, que buscamos discutir o enfrentamento aos castigos corporais e tratamento cruel e degradante e garantir a integridade física e psicológica de crianças e adolescentes, reafirmamos a necessidade de desenvolver políticas públicas preventivas que têm como foco principal os seguintes objetivos:
  • prevenir e reduzir a violência doméstica – orientando as famílias sobre os problemas de uma prática educativa baseada em castigos corporais, bem como sobre a importância do fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, condições fundamentais para realizar o processo de construção de uma cultura de paz.
  •  disseminar os princípios e as vantagens de uma educação não-violenta – informar sobre as consequências negativas das diferentes formas de violência contra a criança e o adolescente, promovendo a reflexão e o diálogo conjunto sobre o tema, para encontrar melhores alternativas de disciplinar e conviver.
  •  difundir a cultura de não-violência em escolas para diminuir a incidência de atos de violência nestes locais.
Somente assim será possível reverter o quadro de extrema vulnerabilidade no qual se encontram as crianças e os adolescentes brasileiros.

Fonte: Rede Não Bata, Eduque!. Disponível em: <http://naobataeduque.tumblr.com/>. Acesso em: 24 nov. 2013.

22 de nov de 2013

Estudo sugere que palmada aumenta chance de filho ter mau comportamento

Uma boa educação requer punição e disciplina? Um novo estudo sugere o oposto. As palmadas podem aumentar as chances de mau comportamento por parte da criança.
Com o uso de uma amostra representativa a nível nacional, os pesquisadores entrevistaram 1.933 pais quando seus filhos tinham 3 anos e novamente quando as crianças tinham 5 anos, perguntando-lhes se batiam em seus filhos e com que frequência. Mais da metade das mães e um terço dos pais tinham batido em seus filhos e a frequência das palmadas diminuiu um pouco aos 5 anos.
Em seguida, os cientistas examinaram as crianças aos 9 anos de idade, usando 50 perguntas para avaliar sua agressividade e o descumprimento de normas. Eles também verificaram o vocabulário das crianças. O relatório foi publicado no periódico Monday in Pediatrics.
Após controlar diversas variáveis como idade da criança e peso ao nascer, agressividade e conhecimento do vocabulário quando mais jovem, renda familiar e raça, entre outros fatores, os pesquisadores descobriram que palmadas maternas na idade de 5 anos estavam associadas de forma significativa a comportamentos mais agressivos e maior descumprimento das normas, além de notas mais baixas nos testes de vocabulário realizados na idade de 9 anos.
"A palmada faz com que a criança pare o que estava fazendo", afirmou Michael J. MacKenzie, principal autor do estudo e professor adjunto da Faculdade de Assistência Social Columbia. "A palmada parece funcionar em um primeiro momento. Entretanto, a meta é fazer com que a criança controle a si própria com o tempo. E nesse ponto a palmada desaponta."
No Brasil, a proposta da lei da Palmada que proíbe os pais de aplicar castigos físicos nos filhos foi aprovada em dezembro passado por uma comissão especial em caráter conclusivo e poderia seguir diretamente para o Senado, mas deputados de diversos partidos recorreram e ela terá de passar por votação no plenário da Câmara antes de seguir para outra casa.




19 de nov de 2013

ONG da Holanda usa menina virtual de 10 anos para rastrear pedófilos

A ONG "Terre Des Hommes" já identificou mais de 500 suspeitos de pedofilia. Em quatro meses, menina foi procurada por mais de 20 mil homens, entre eles, dois brasileiros.


A missão na sala de controle é rastrear pedófilos em todo o mundo com uma arma inédita: uma garotinha virtual. Ela simula uma criança de apenas 10 anos, procurada por 20 mil homens em quatro meses. E dois deles são brasileiros, como mostra o correspondente Roberto Kovalick.
Amsterdã, Holanda. Em algum lugar desta cidade, está montada a armadilha para pegar pedófilos.
O endereço é secreto. Somos levados de carro até lá por um diretor da organização não-governamental que criou o sistema, com o compromisso de não mostrarmos o local por fora. Eles temem represálias de gangues que exploram crianças sexualmente. O local é uma sala escura.
É lá onde eles caçam pedófilos no mundo inteiro. E um integrante da ONG está fingindo que é uma menina de dez anos de idade.
Ele também não pode mostrar o rosto por segurança. O nome da criança virtual é Sweetie, "docinho" em português.
É um avatar, um personagem de computador criado pela organização "Terre Des Hommes" - terra dos homens. Ela tem características de uma criança das Filipinas, um país que sofre com a exploração sexual infantil.
O operador do computador mostra como funciona a armadilha. Primeiro, ele, fingindo ser Sweetie, entra em uma sala de bate-papo sobre sexo.
Ele se identifica na internet como uma menina filipina de dez anos e imediatamente os homens começam a aparecer. É difícil contar, são mais de 20 e a todo instante surge um novo. Um deles a chama de "sexy" e diz ter 28 anos de idade.
O operador nos mostra uma proposta ainda mais indecente: "Você está interessada em australianos com dinheiro?" A oferta é para que as crianças apareçam nuas em frente à câmera e o pagamento é feito com cartão de crédito ou transferência bancária.
Sweetie não faz isso. Mas o rosto dela aparece no computador do homem que fez a proposta, fazendo movimentos semelhantes aos de qualquer pessoa que esteja conversando na internet.
Assim, o homem do outro lado pensa mesmo que está em um bate papo com uma menina e se revela.

Em paredes estão as fotos de 500 suspeitos de pedofilia. Elas foram tiradas quando eles ligaram a câmera do computador para conversar com a menina virtual. Nós não podemos mostrar detalhes. Mas muitos deles estão nus, tiraram a roupa para aparecer para uma criança.
Em quatro meses, a menina foi procurada por 20 mil homens. A ONG conseguiu, além de tirar fotos, gravar vídeos e descobrir onde está o computador de mil suspeitos. A maioria é de americanos. E há dois brasileiros na lista.
O diretor, Albert Santbrink, disse que não pode dar detalhes dos dois, nem de que cidade são.
"Todas as informações, todos os detalhes sobre a identidade, o comportamento deles, está nas mãos da Interpol, a polícia internacional, para começar uma investigação oficial", diz ele.

A iniciativa da organização mostra que há muitos pedófilos à caça na internet. Por outro lado, prova que não é difícil pegá-los. Com a isca certa, eles caem direitinho na armadilha.

17 de nov de 2013

Operação livra quase 400 crianças de rede de pornografia infantil do Canadá


Salve o trabalho da polícia do Canadá!
A inspetora da polícia de Toronto afirmou que entre os 341 suspeitos presos em dez países estão professores, médicos, enfermeiras, pastores e padres, além de três pais adotivos.

A operação - batizada de Projeto Spade - começou há três anos. Policiais disfarçados fizeram contato com um suspeito de envolvimento em pornografia infantil.
A investigação mostrou que ele era dono de uma empresa que vendia filmes pela internet para clientes em 94 países - incluindo o Brasil.

A investigação canadense livrou 386 crianças da rede de exploração sexual. Na empresa investigada em Toronto foram encontradas mais de 280 mil imagens pornográficas de meninos entre 5 e 12 anos.

O material apreendido pela polícia levou à identificação dos criadores e também dos compradores dos vídeos.

Veja mais informações AQUI

Fonte: Blog Educar sem Violência. Cida Alves. 2013. Acesso em: 17 nov. 2013.

11 de nov de 2013

Corpo de Joaquim, 3, é achado no rio Pardo a 150 km de Ribeirão Preto


ISABELA PALHARES
                                                                 ENVIADA ESPECIAL A BARRETOS
Atualizado às 22h15.
O corpo do garoto Joaquim Ponte Marques, 3, desaparecido desde a última terça-feira (5), foi encontrado no início da tarde deste domingo (10) no rio Pardo, em Barretos, a 150 quilômetros de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo).
Embora tenha sido encontrado no rio, a Polícia Civil informou que exames preliminares feitos pelo IML (Instituto Médico Legal) descartaram que o menino tenha morrido afogado, já que não havia água em seus pulmões.
Uma das hipóteses levantadas pela polícia é que ele tenha sido jogado já sem vida no córrego Tanquinho, que fica a 200 metros da casa da família, no Jardim Independência e, de lá, tenha sido levado até o ribeirão Preto, que é afluente do Pardo.

Editoria de arte/Folhapress
Após o encontro do corpo, a polícia conseguiu que a Justiça concedesse hoje mesmo a prisão temporária do casal.
Nos quatro dias de buscas feitas pelo Corpo de Bombeiros, a corporação percorreu cerca de 20 quilômetros no córrego, no ribeirão e no rio, sem sucesso.
O reconhecimento do corpo no IML foi feito pela mãe, Natália Mingoni Ponte, o pai, Arthur Paes, e o avô materno. O pai, no entanto, se recusou a ver o corpo do filho --só o reconheceu por fotos mostradas por policiais.
Após a confirmação da morte do garoto, pelo menos 150 pessoas foram à casa da família atrás do padrasto de Joaquim, Guilherme Raymo Longo, que não foi a Barretos. Policiais isolaram a área e o tiraram do local, para que ele não fosse linchado.
Para o delegado Paulo Henrique Martins de Castro, da DIG (Delegacia de Investigações Gerais), e para a Promotoria, há indícios da participação do casal no caso.
Por isso, a polícia fez, no dia seguinte ao sumiço, um pedido à Justiça de prisão temporária do padastro e de Natália, que foi negado.
Ambos negam envolvimento no caso. Na saída da delegacia de Barretos, Natália limitou-se a afirmar que é "muito inocente".
Reprodução
O menino Joaquim Ponte Marques, 3, que estava desaparecido desde a última terça-feira (5) em Ribeirão Preto (SP)
O menino Joaquim Ponte Marques, 3, que estava desaparecido desde a última terça-feira (5) em Ribeirão Preto (SP)
De acordo com o diretor do Deinter-3 (Departamento de Polícia Judiciária do Interior), João Osinski Junior, o corpo de Joaquim foi encontrado às margens do Pardo às 12h por um dono de rancho, que avisou o Corpo de Bombeiros.
Depois de reconhecer o corpo do filho, Natália voltou a Ribeirão e foi levada à DIG, para um novo depoimento, já na noite deste domingo. Cerca de cem pessoas estavam em frente ao local, protestando contra o casal.

10 de nov de 2013

Um precioso presente feito de palavras e comoção

Estimado(a) leitor(a),
Compartilho com você uma grande alegria, recebi no dia de ontem o texto completo do comentário que o prof. Dr. Marcos Loureiro fez sobre a tese ALFORRIA PELO SENSÍVEL - CORPOREIDADE DA CRIANÇA E FORMAÇÃO DOCENTE” de minha autoria.

Marcos Loureiro
COMENTÁRIO DO PROFESSOR MARCOS LOUREIRO

Com certeza, vou repetir aqui muito do que disse na qualificação, até porque, naquela oportunidade, o público se reduzia aos colegas do grupo de pesquisa da Cida. Penso que essa repetição se faz necessária porque o que foi dito deva ser ouvido por uma plateia mais ampliada do que aquela que aqui se encontrava naquela ocasião.

Em primeiro lugar, quero ressaltar o mérito deste trabalho, com certeza ligado a sua sensibilidade, cujo tema é a violência contra a criança, todo e qualquer tipo de violência, seja ela física ou psicológica. Através dele, você entra fundo na discussão sobre a violência dentro da família, que é onde mais se perpetra a violência contra a criança, grande parte das vezes, sob o pretexto de que se trata de um método educativo eficaz. Você se posiciona em seu trabalho radicalmente contra todo e qualquer tipo de violência, mesmo, e principalmente, aquele que você denominou já em sua dissertação de mestrado e continua denominando aqui método educativo punitivo-disciplinar. Isto porque esse método é, muitas vezes, a porta de entrada para a aceitação de outros tipos de violência, mais pronunciadas do que a palmada que educa, frequentemente justificados porque a criança teima em não se submeter aos ditames dos adultos.

O tema é, portanto, muito significativo não só para a educação familiar como para a educação como um todo, em especial para a formação de professores. Como você deixa transparecer em alguns depoimentos, a violência contra a criança é assunto sobre o qual essa formação tem se calado. Como mais um depoimento a corroborar os seus argumentos, fico impressionado como este tema esteve ausente durante tanto tempo dos programas de Psicologia da Educação, como se não se tratasse de uma realidade insistentemente presente na vida das crianças. Isso mostra que ainda não estamos convencidos de que a violência contra a criança deixa marcas, se não indeléveis, muito difíceis de apagar e que, por isso, é inaceitável sob qualquer pretexto.

Tentar convencer o leitor sobre essa realidade você persegue do início ao fim do seu trabalho. E o faz através de um texto extremamente atraente, com qualidade literária, mesclando com maestria duas formas de conhecimento: a arte, por meio da literatura, e a ciência. Coisa que pode causar espécie a mentalidades exacerbadamente positivistas, que não aceitam a inclusão da emoção em áreas cujo espaço deveria ser domínio da razão. Em seu texto você demonstra que razão e emoção devem caminhar juntas. A propósito, mesmo que você não o tenha citado, ao preparar essa arguição, lembrei-me de uma passagem de Gramsci, autor de base materialista dialética, corrente teórica cujos pressupostos você afirma adotar em seu trabalho. Mesmo que ele não esteja entre suas referências, ele apoiaria essa sua atitude intelectual. Não me lembro exatamente de suas palavras, mas ele disse algo mais ou menos assim: É impossível compreender sem estar apaixonado não só pelo saber como também pelo objeto desse saber; é impossível fazer ciência sem essa paixão. Ele se refere, é claro, à ciência na concepção materialista, como aquela à qual importa não só interpretar o mundo, mas transformá-lo, ou seja fazer história; então, o que ele diz, literalmente, é impossível fazer política-história sem essa paixão. Paixão pelo objeto do seu saber que você demonstra do início ao fim do trabalho. Mas essa paixão, oriunda da sua sensibilidade para perceber os problemas está aliada à argúcia para defini-los e pesquisá-los, outra qualidade que você demonstra com muita força neste trabalho.

Pessoalmente, sinto minha percepção da criança mudada a partir da leitura de seu trabalho. Sinto-me mais sensível à criança como um OUTRO EM PROCESSO, e não apenas como um vir-a-ser. Nesse sentido, passei a ter uma percepção mais aguda de sua desvalia diante do adulto forte e opressor. A revisão que você faz do grito do Marcos, de la Rioja, ao Jesus maltratado e açoitado na procissão da semana santa:defende-se!, que no caso de uma criança diante dos maus tratos de um adulto deveria ser defende-me! é emblemática dessa mudança. É claro que minha leitura pode ser interpretada como reação de alguém que já demonstra alguma sensibilidade à violência contra a criança, mas nunca a reação de alguém é única; com certeza muitas outras pessoas poderão sensibilizar-se em defesa das crianças. Como a quantidade é elemento fundamental para a transformação da qualidade, com certeza, este trabalho pode ter papel importante nessa transformação.

Essa paixão pelo objeto resultou em outra característica extremamente positiva do trabalho: ter dado continuidade ao tema trabalhado no mestrado, assimilando à tese partes importantes da dissertação, que receberam interpretação em novo contexto. No trabalho científico, é importante essa continuidade no aprofundamento de uma temática, o que só propicia maior compreensão do objeto.

Outra qualidade, à qual já havia me referido na qualificação, e que é extremamente positiva do seu trabalho é a autoria. Você não deixa dúvida em qualquer momento de que as posições aqui expostas são suas. O eixo condutor do trabalho é seu. Apesar das interlocuções com inúmeros autores, estes são trazidos ao texto para confirmar os seus raciocínios ou para contestá-los.

Você faz um trabalho de revisão bibliográfica e fundamentação teórica primoroso, que não deixa passar por menos nenhum conceito. Vai a fundo na busca das concepções teóricas que podem ajudá-la a melhor entender e explicar o seu tema.

É gratificante, tendo participado do seu exame de qualificação, perceber a medida em que você soube apropriar-se das nossas contribuições; enfim, como você acata com maestria e discernimento as sugestões e o conteúdo das discussões realizadas durante a qualificação.

Creio que seu objetivo geral com a pesquisa, de construir fundamentos pedagógicos para uma formação docente que contribua para a desnaturalização da violência física intrafamiliar como método educativo punitivo disciplinar foi atingido. Nos objetivos específicos, essa tese buscou identificar e analisar experiências formativas que realizaram em sua proposta pedagógica uma integração entre conhecimentos objetivos e subjetivos na formação docente. Buscou-se ainda investigar os conhecimentos construídos pelos profissionais que atuam como formadores de referência nos temas que envolvem situações de violências contra crianças

O que digo a partir daqui, e que se trata de minha arguição propriamente dita, tome apenas como sugestões para trabalhos futuros. O primeiro aspecto que para mim se destaca no seu trabalho e, talvez, derive da própria paixão com que você o trata, é que, no capítulo em que você apresenta os dados das entrevistas e das observações, embora não tenhamos a transcrição completa das entrevistas, creio que você tenha explorado pouco os seus dados. Enfim, senti dificuldade de que você deixasse os dados falar mais, conduzidos, é claro, pelas suas interpretações teóricas e não mais pelo aporte da interpretação de outros autores ao interior do capítulo, o que algumas vezes aconteceu. Acredito que essas entrevistas poderão servir para trabalhos futuros seus, onde poderiam ser melhor exploradas.

Um grande mérito do seu trabalho foi sua capacidade de inserir a violência no interior da dialética social mais ampla da qual a primeira é uma expressão. Você não usa, como é comum a pessoas que tratam do tema, o contexto social apenas como pano de fundo, mas você insere a questão da violência como parte constitutiva desse contexto social.

Só tenho, portanto, que parabenizá-la pelo seu trabalho e já que em defesa de dissertações questionar é preciso, concluo minha participação nessa banca com uma questão que me intriga e à qual já havia chamado sua atenção no exame de qualificação. Você sinta-se à vontade para comentá-la. Você escreveu: “Os pressupostos teóricos e o caminho metodológico adotado na pesquisa foram norteados por uma concepção de mundo e de homem que nega a naturalizaçãodos fenômenos sociais e compreende que a realidade imediata esconde desigualdades historicamente construídas que são justificadas ou ocultadas por ideologias”. E, logo a seguir, “Realizou-se a discussão sobre o conceito de violência no sentido de contribuir para a desconstrução do mito de que o homem é naturalmente violento”.

A observação que faço a respeito é que essa negação tem que ser uma negação dialética, qual seja, que implica a transformação da natureza. Trata-se aqui de reconhecer a dialética natureza-cultura: o que impera no mundo natural é a lei da selva, segundo o qual os mais fortes sobrevivem, mesmo que sob o uso da violência. A transformação em cooperação da agressividade natural, que, como tem acontecido, pode desaguar em violência, é fundamental para a existência do homem enquanto espécie e essa transformação é fruto das condições materiais de existência. Portanto é a transformação dessas condições que deve ser o alvo final de nossa teoria e nossa prática. O “homem naturalmente violento não é apenas mito”, mas fruto de condições materiais de existência que não só permitem, mas, muitas vezes, o incitam à violência.

Era isso o que eu tinha a comentar. Mais uma vez, meus parabéns pelo trabalho. E não se iluda. Este é apenas um ponto de passagem, não um ponto de chegada. Novos desafios virão e espero que se dedique a eles com a mesma garra que, até agora, tem-se dedicado.

Goiânia, 30 de agosto de 2013

Prof. Dr. Marcos Corrêa da Silva Loureiro

Fonte: Blog Educar sem Violência. Cida Alves. Acesso em: 10 nov. 2013.

3 de nov de 2013

O abuso de crianças

Fact sheet n º 150 
agosto 2010

Fatos e números

  • Aproximadamente 20% das mulheres e 5-10% dos homens relatam ter sido abusadas sexualmente na infância, enquanto que 25-50% das crianças de ambos os sexos se relacionam abuso físico.
  • Entre as conseqüências do abuso infantil são problemas de saúde física e mental para a vida, e os efeitos sociais e de emprego pode retardar o desenvolvimento econômico e social negativa dos países.
  • Você pode prevenir o abuso de criança antes que ela ocorra, e isso requer uma abordagem multissetorial.
  • Programas de prevenção eficazes prestar apoio aos pais e proporcionar-lhes conhecimentos e positiva técnicas para criar seus filhos.
  • Atenção contínua às crianças e famílias podem reduzir o risco de recorrência de maus-tratos e minimizar as suas consequências.

O abuso de crianças é definida como abuso e negligência que estão sujeitas a menores de 18 anos, e inclui todos os tipos de abuso físico ou psicológico, abuso sexual, abandono, negligência e comercial ou de outra forma que causem ou possam causar danos à saúde, desenvolvimento ou dignidade da criança, ou colocar em perigo a sua sobrevivência no contexto de uma relação de responsabilidade, confiança ou poder. A exposição à violência por parceiro às vezes também incluiu entre as formas de abuso infantil.

Magnitude do problema

O abuso de crianças é um problema global com sérias conseqüências que podem durar uma vida. Não há estimativas confiáveis ​​sobre a prevalência global de abuso infantil, como não há dados sobre a situação em muitos países, especialmente os de baixa e média renda.
O abuso de crianças é complexo e difícil de estudar. As estimativas atuais são altamente variáveis, dependendo do país e do método de pesquisa utilizado. Essas estimativas dependem de:
  • definições de abuso infantil utilizados;
  • o tipo de estudo de abuso infantil;
  • cobertura ea qualidade das estatísticas oficiais;
  • cobertura e qualidade das pesquisas com base nos relatórios das vítimas, os pais ou cuidadores.
No entanto, estudos internacionais mostram que aproximadamente 20% das mulheres e 5-10% dos homens relatam ter sido abusadas sexualmente na infância, enquanto que 25-50% das crianças de ambos os sexos se relacionam abuso físico . Além disso, muitas crianças são submetidas a abuso psicológico (também chamado de abuso emocional) e vítimas de negligência.
Estima-se que a cada ano morrem de homicídio 31 000 crianças menores de 15 anos. Este número subestima a verdadeira magnitude do problema, como uma grande proporção de mortes de abuso infantil atribuída incorretamente a quedas, queimaduras, afogamentos e outras causas.
Em situações de conflito armado e aos refugiados, as meninas são particularmente vulneráveis ​​à violência, exploração e abuso sexual por soldados, as forças de segurança, membros de sua comunidade, trabalhadores humanitários e outros.

Conseqüências do abuso

O abuso de crianças é uma causa de sofrimento para crianças e famílias, e pode ter consequências a longo prazo. Os maus-tratos provoca estresse e está associado com alterações precoces do desenvolvimento do cérebro. Os casos extremos de stress pode alterar o desenvolvimento dos sistemas nervoso e imunológico. Consequentemente, os adultos que foram abusados ​​na infância têm maior risco de problemas comportamentais, físicas e mentais, tais como:
  • a violência (como vítimas ou agressores);
  • depressão;
  • consumo de tabaco;
  • obesidade;
  • comportamento sexual de alto risco;
  • gravidezes indesejadas;
  • abuso de álcool e drogas.
Através dessas conseqüências no comportamento e saúde mental, o abuso pode contribuir para doenças cardíacas, câncer, suicídio e doenças sexualmente transmissíveis.
Além de suas conseqüências sociais e de saúde, abuso de crianças tem um impacto econômico que cobre os custos de hospitalização, tratamentos, por razões de saúde mental, serviços sociais para as crianças e os custos de saúde a longo prazo.

Fatores de Risco

Eles identificaram vários fatores de risco para o abuso de crianças. Embora não esteja presente em todos os contextos sociais e culturais, dar uma visão geral para a compreensão das causas de abuso infantil.
Fatores criança
Não se esqueça de que as crianças são as vítimas e eles nunca foram capazes de culpar o abuso. No entanto, há um certo número de características da criança, que pode aumentar a probabilidade de ele ser abusado:
  • idade inferior a 4 anos e adolescência;
  • o fato de não ser querido ou não atender às expectativas dos pais;
  • com necessidades especiais, choram muito ou têm características físicas anormais.
Fatores de pais ou cuidadores
Existem várias características dos pais ou cuidadores que podem aumentar o risco de abuso de crianças, incluindo:
  • dificuldades de se relacionar com o recém-nascido;
  • incapacidade de cuidar da criança;
  • história pessoal de abuso infantil;
  • falta de conhecimento ou expectativas irreais sobre o desenvolvimento infantil;
  • consumo de álcool ou abuso de drogas, especialmente durante a gravidez;
  • participação em atividades criminosas;
  • dificuldades econômicas.
Fatores de relacionamento
Existem várias características das relações familiares ou relacionamentos com parceiros, amigos e colegas que podem aumentar o risco de abuso de crianças, incluindo:
  • o físico, mental ou desenvolvimento de qualquer membro da família;
  • desagregação familiar ou violência entre outros membros da família;
  • isolamento na comunidade ou a falta de uma rede de apoio;
  • a perda do apoio da família para criar a criança.
Fatores sociais e comunitários
Existem várias características das comunidades e sociedades que podem aumentar o risco de abuso de crianças, incluindo:
  • desigualdades sociais e de gênero;
  • a falta de habitação e de serviços de apoio às famílias e instituições adequadas;
  • altos níveis de desemprego e pobreza;
  • fácil disponibilidade de álcool e drogas;
  • políticas e programas inadequados para a prevenção do abuso, pornografia, prostituição e trabalho infantil;
  • normas sociais e culturais que prejudicam a situação da criança nas relações com os seus pais ou incentiva a violência para com os outros, a punição corporal ou a rigidez dos papéis atribuídos a cada sexo;
  • o desenvolvimento social, econômico, de saúde e educação que criar condições de vida precárias ou instabilidade ou desigualdades socioeconômicas.

Prevenção

A prevenção de abuso infantil requer uma abordagem multissetorial. Programas eficazes são aqueles que apoiar os pais e dar-lhes conhecimento positivo e habilidades para criar seus filhos. Entre elas estão:
  • visitas domiciliares pelos enfermeiros para prestar apoio, formação e informação;
  • formação dos pais, geralmente em grupos, para melhorar a sua capacidade para criar os filhos, melhorar o seu conhecimento do desenvolvimento da criança e incentivá-los a adotar estratégias positivas em suas relações com seus filhos e
  • intervenções multi-componente, geralmente incluindo o apoio dos pais e formação, educação infantil e creche.
Outros programas preventivos promissores são:
  • as destinadas a prevenir lesões na cabeça de abuso. Geralmente esses programas hospitalares por meio do qual informa os novos pais sobre os perigos da agitação crianças e como lidar com o problema das crianças com choro inconsolável.
  • as destinadas a prevenir o abuso sexual na infância. Geralmente realizado em escolas e ensinar as crianças:
    • posse de seu corpo;
    • diferenças entre os contatos normais e de abuso sexual lascivo;
    • como reconhecer situações abusivas;
    • como dizer "não";
    • como revelar o abuso a um adulto de confiança.
Estes programas são eficazes no fortalecimento de fatores de proteção contra o abuso sexual na infância (por exemplo, o conhecimento do abuso sexual e comportamentos de protecção), mas nenhuma evidência de que eles reduzem outros tipos de abuso.
Quanto mais cedo essas intervenções ocorrem na vida da criança, maiores serão os benefícios que ela pode trazer a ele (por exemplo, habilidades cognitivas, comportamentais e sociais, nível educacional) e da sociedade (por exemplo, redução da criminalidade).
Além disso, o reconhecimento precoce dos casos e a assistência contínua às vítimas e suas famílias podem ajudar a reduzir a ocorrência de abuso e mitigar as suas consequências.

Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs150/es/. Acesso em: 03 nov. 2013.