29 de jun de 2012

Rodas de bebês rejeitados ressurgem na Europa






Rodas de bebês rejeitados ressurgem na Europa


Roda de bebês na Europa


Placa em alemão aponta para local onde mães podem abandonar filhos indesejados.

Um sistema comum na Idade Média para abandonar filhos indesejados ressurgiu com força na Europa nos últimos dez anos, mas com nova roupagem.

Diferente das rodas de bebês rejeitados de outros séculos, o equipamento moderno difere dos cilindros de madeira instalados em paredes de conventos ou igrejas medievais. Nos equipamentos antigos os bebês indesejados eram depositados pela parte de fora e depois girados para dentro dos estabelecimentos.

Embora tenha a mesma finalidade, o novo sistema consiste em uma espécie de berço aquecido, monitorado por enfermeiras e disposto em locais próximos a hospitais com fácil acesso da população.

A prática, entretanto, continua sendo duramente criticada pela ONU, uma vez que violaria os direitos das crianças.

Em Berlim, por exemplo, uma placa localizada ao final de uma rua de um bairro tranquilo chama atenção de moradores e visitantes, apontando para um caminho entre as árvores.

Na placa, lê-se a seguinte mensagem "Babywiege" (berço).

No final deste caminho, há uma escotilha de aço com uma alça. Dentro dela, uma espécie de berço, com cobertores para acomodar o recém-nascido, possivelmente indesejado pela família.

O local é seguro e a temperatura ideal para um bebê. Há também uma carta deixada pelos responsáveis pela instalação do berço, caso o depositante se arrependa de sua decisão e queira a criança de volta.

Duas vezes por ano, alguém - possivelmente uma mulher - percorre tal trajeto até os fundos do Hospital Walfriede.

Para fontes ligadas ao tema, trata-se, normalmente, de um caminho sem volta. A criança indesejada crescerá sem nunca conhecer a mãe.

O processo é anônimo, ou seja, não se conhece a identidade do depositante, por mais que tal prática seja mais comum entre as mães.

Mas é justamente este argumento - o de confidencialidade - que é criticado por quem condena a iniciativa.

Crítica

Críticos afirmam que a roda pode ser usada por pais inescrupulosos ou até cafetões para pressionar as mães a abandonar seus bebês.

"Estudos na Hungria mostram que não são necessariamente as mães que depositam seus filhos nessas caixas, mas, por outro lado, parentes, cafetões, padrastos e até mesmo os pais biológicos", disse em entrevista à BBC Kevin Browne, da Universidade de Nottingham.

"Como o processo é realizado no anonimato e não inclui qualquer aconselhamento psicológico à mãe, cria um precedente perigoso tanto para a mulher como para a criança", acrescentou.
Roda de bebês na Europa 2
Funcionamento da "roda" moderna é similar à medieval; bebê é depositado dentro da escotilha.

Para o estudioso, ao facilitar o processo de abandono de um bebê, as mães ficam menos suscetíveis a receber a ajuda necessária em uma situação de grande trauma emocional e, até mesmo, de risco para sua saúde.

Não há consenso, contudo, sobre o argumento levantado por Browne. Partidários da medida afirmam que estão oferecendo a mães desesperadas uma maneira segura de abandonar filhos indesejados.

Recentemente, uma mãe alemã foi condenada por atirar seu filho recém-nascido da janela do quinto andar de um edifício.


Crescimento


Situações como essa impulsionaram a prática da "roda" moderna na Europa Central e Oriental, desde os países bálticos, passando por Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria, República Tcheca até a Romênia.

A lei de alguns desses países encoraja o sistema. Na Hungria, por exemplo, a legislação foi alterada para permitir que a iniciativa fosse considerada legal, nos mesmos padrões da adoção, enquanto que o abandono de um recém-nascido continua sendo considerado crime.

Kevin Browne, da Universidade de Nothingham, acredita que a tendência de crescimento é maior em países com passado comunista ou majoritariamente católicos, onde o estigma da mãe solteira ainda é muito forte.

Para Gabriele Stangl, do Hospital Waldfriede em Berlim, que recebe dezenas de recém-nascidos por ano, a prática moderna da "roda" salva vidas, e, diferentemente do que pensa Browne, também aumenta os direitos das crianças.

Segundo ela, o sistema conta com todas as facilidades de uma maternidade comum. Uma vez que o bebê é depositado no berço improvisado, um alarme soa e uma equipe de médicos chega para checar o estado de saúde do recém-nascido.

A criança, então, é tratada no hospital e nutrida até ser encaminhada ao sistema legal de adoção. Neste período inicial, as mães têm o direito de buscarem de volta seus filhos caso se arrependam. Porém, uma vez feita a adoção, não há mais recurso.

Arrependimento


Não são raros os casos das mães que decidem voltar atrás em sua decisão. Uma delas contou à BBC que, como engravidou muito jovem e não tinha o apoio do pai da criança, ficou em estado de choque após o nascimento e decidiu colocar o filho na "roda". Ela, entretanto, se arrependeu uma semana depois.

Em uma única "roda" em Hamburgo, no norte da Alemanha, 42 bebês foram abandonados na última década. Desse montante, 17 mães contataram os organizadores e 14 buscaram de volta seus filhos.

"Em 1999, cinco bebês foram abandonados na cidade e três deles morreram", disse Steffanie Wolpert, uma das fundadoras do sistema de Hamburgo. "Então, nós pensamos em um jeito de contornar essa situação e permitir a sobrevivência dessas crianças", acrescentou.

Mas os críticos, como o Comitê das Nações Unidas para os Direitos das Crianças, não estão convencidos dos benefícios do sistema. Eles alegam que a iniciativa é um retrocesso às práticas medievais.

Segundo Maria Herczog, uma psicóloga infantil que integra o comitê, uma alternativa mais eficiente à "roda" moderna seria entender e ajudar as mães em circunstâncias difíceis.

"Essa prática envia uma mensagem errada às mulheres de que têm o direito de continuar escondendo a gravidez, dando a luz em circunstâncias pouco conhecidas e abandonando seus bebês", disse Herczog.


Enviado por Alciane Barbosa, em 27 de junho de 2012.

Fonte: Stephen Evans - BBC News, Berlim Atualizado em  26 de junho, 2012 - 14:28 (Brasília) 17:28 GMT. IN: Blog Educar Sem Violência. Cida Alves. 2012.

28 de jun de 2012

Efeitos do castigo físico– Rede Não Bata Eduque



Efeitos do castigo físico– Rede Não Bata Eduque


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O uso do castigo físico ensina que a violência é uma maneira plausível e aceitável de se solucionar conflitos e diferenças.


Os castigos físicos e humilhantes têm efeitos distintos nas crianças, já que têm relação direta com as experiências vividas por cada uma delas, além da configuração familiar. Mas uma consequência direta do uso do castigo físico é o aprendizado de que a violência é uma maneira plausível e aceitável de se solucionar conflitos e diferenças, principalmente quando você está em uma posição de vantagem frente ao outro, principalmente física (como no caso do adulto frente à criança).

Este aprendizado é transmitido para outras relações da criança – por exemplo, um irmão mais novo ou na escola. Outra consequência comum é a criança apresentar um perfil retraído e introvertido, com baixa autoestima, gerando insegurança, medo, timidez, passividade e submissão.

Não é raro que a violência física ou psicológica acabe acontecendo em um rompante de raiva, e não por metodologia. Nestes momentos os pais podem conversar com seus filhos e serem sinceros com eles, explicando que perderam o controle e que se arrependem. Este tipo de atitude é um ótimo exemplo de humildade e de respeito para com o outro. Ao sentarem para conversar com seus filhos, os pais darão o exemplo de que pedir desculpas não é algo do qual a criança deva se envergonhar e de que errar é humano, que nem sempre eles, pais, irão acertar em tudo, apesar de sempre desejarem o melhor para seus filhos. Esse tipo de postura também é assimilado pela criança.
desculpa[1]
Devemos ensinar que pedir desculpas não é algo do qual a criança deva se envergonhar e de que errar é humano


Esses momentos são bons para ouvir a criança e procurar junto a ela estabelecer as “regras” de convivência familiar. Por exemplo, os pais podem identificar que não agiram da melhor forma porque chegaram cansados do trabalho, e estabelecer com os filhos que, quando isso acontecer, será preciso um tempo para relaxarem e então darem a atenção devida à criança.

Fonte: Site da Rede Não Bata Eduque. IN: Blog Educar Sem Violência. Cida Alves. 2010

25 de jun de 2012

A importância de dar atenção aos filhos - Maria Abigail de Souza


A importância de dar atenção aos filhos - Maria Abigail de Souza


criancas-agressivasSe seu filho anda agressivo, pode ser que esteja sentindo falta de carinho.
Veja como vencer o problema
Ele morde o amiguinho na escola, bate no irmão, agride os pais, tem acessos de fúria quando contrariado. A violência é uma das armas que a criança usa instintivamente para demonstrar que está carente. "Na maioria dos casos, essa agressividade é uma espécie de pedido de socorro, a criança está querendo mais atenção, e isso pode ser mudado com o amor dos pais", orienta Maria Abigail de Souza, professora titular do departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP).

Maria Abigail sabe o que diz. A especialista realizou um trabalho com 14 meninos violentos, entre 9 e 11 anos, vítimas de abandono emocional e social, durante 12 anos. O resultado mostrou que essas crianças se acalmavam ao receber atenção de adultos próximos. "Quando a criança se sente largada, faz barulho para buscar a atenção de que precisa", avalia.

É necessário admitir que violência gera violência. Por isso, nunca tente combater a agressividade do seu filho com ameaças ou castigos físicos. É preciso dar limite com amor, carinho e diálogo. Calma, mãe, existe luz no fim do túnel. Basta ter paciência para percorrer esse caminho.

Como lidar com o problema em cada faixa etária:

Até os 3 anos

A agressividade é uma forma de o bebê manifestar os desejos e a excitação. Se o filho deu um tapinha, segure sua mão e diga, com firmeza: "não pode!". "Eles já entendem", esclarece a psicóloga.

De 4 a 7 anos

A criança começa a entender a lei de ação e reação. Coloque de castigo ou tire algo que lhe dá prazer por um tempo determinado (como um programa de TV ou o computador). É fundamental que seja um castigo por um tempo e que ele seja cumprido.

De 8 a 12 anos

Se o comportamento persistir, o caso começa a ficar preocupante e é preciso combater o problema. O castigo é a melhor saída. "E os pais não podem dizer `não' para algo hoje e `sim' para essa mesma coisa amanhã", conta a profissional.

Na adolescência

Se não controlaram o filho antes, nessa fase os pais correm perigo até de apanhar dele. Ainda assim, é preciso manter a autoridade com conversa e dando o exemplo. Se for o caso, peça ajuda a um profissional.

Sinais de que ele quer sua atenção
Brigas na escola: Se a criança começa a bater nos amigos e a ser malcriada com professores, os pais devem ir à escola, conversar com os profissionais e tentar participar mais da vida do filho.

Arrogância: A criança parece ter prazer em irritar colegas com suas conquistas ou por ter os brinquedos que todos querem. Dê mais carinho.

Falta de autoestima: A criança agride os colegas quando a chamam por algum apelido ou apontam algo que ela não quer enxergar em sua vida. Elogie mais seu filho e mostre a ele, todos os dias, as qualidades que ele tem.

Introspecção: A criança fica mais quieta e se isola. Estimule-a a falar sobre o que sente e tenha paciência para ouvir.

Como agir quando a criança está agressivia
  • Na crise de raiva, contenha a criança. Se for preciso segurá-la, faça-o, mas sem violência. Dá, sim.
  • Converse. Isso ajuda a fazer a criança falar sobre o motivo da raiva.
  • Mostre à criança que você entende o sentimento dela e dê carinho.
  • Se o comportamento agressivo permanecer, coloque-a de castigo.

Evite que seu filho recorra a violência para se manifestar
  • Imponha limites, com firmeza e ternura. Não seja permissiva, achando que o filho pode tudo. Não pode, não!
  • Dê o exemplo. Nunca resolva com palmadas. "É possível educar sem bater, usando castigo moral ou tirando coisas que lhe dão prazer por um tempo", diz Maria Abigail.
  • Reprima qualquer manifestação de violência. Explique a seu filho por que ele não pode agir assim. A paz melhora o mundo, já a guerra...
  • Não seja autoritária demais. É melhor demonstrar afeto. Assim, a criança vai perceber a diferença entre os sentimentos de amor e ódio.

Veja as atitudes que fazem seu filho trocar a violência pela paz:

Gastando energia
Gastar energia
Brincar ao ar livre, correr, praticar esporte. "Gastar energia ajuda a criança a extravasar esses sentimentos. Só ficar na internet atrapalha esse processo", garante a especialista.



Brincar em família

Brincar com a família
Jogar em família, como a brincadeira de varetas ou jogos de tabuleiro. Essa atividade faz com que ele sinta sua companhia e perceba que não precisa "aprontar" para conseguir isso.




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Desenhar
Estimule-o a isso e, se ele for mais velho, sugira que tenha um diário. Colocar as emoções no papel ajuda a organizar melhor os pensamentos.




Esperar

Saber esperar
Se ele é pequeno, faça-o perceber que você não está à disposição dele o tempo todo. Quando for maior, faça-o respeitar filas, por exemplo.





Isso não pode





Saber ouvir não
Não tenha medo dessa palavra! Quando o filho percebe que os pais perderam o controle, ele fica ainda mais agressivo. "Ele está pedindo limites", diz Maria Abigail.






Fonte: Educar para crescer. IN: Blog. Educar Sem Violência. Cida Alves. 2012. 

24 de jun de 2012

Última entrevista realizada por Paulo Freire



Última entrevista realizada por Paulo Freire



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“Eu morreria feliz se eu visse o Brasil cheio em seu tempo histórico de marchas: Marchas dos que não tem escola, marcha dos reprovados, marcha dos que querem amar e não podem, marcha dos que se recusam a uma obediência servil…..”

Um relato emocionante sobre o papel da marchas em nossa sociedade atual.


Enviado por Nubia Vieira Teixeira, mestranda do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás, em 16 de junho de 2012.

Fonte: Blog - Educar Sem Violência. Cida Alves. 2012.

17 de jun de 2012

Curaçao é o 33º país no mundo a proteger as crianças contra os castigos corporais e o primeiro no Caribe.



Curaçao é o 33º país no mundo a proteger as crianças contra os castigos corporais e o primeiro no Caribe.


Curoção Caribe 1
Curaçao aprova legislação que protege as crianças contra os castigos corporais

Compartilho com vocês duas importantes notícias sobre o progresso da Campanha Mundial pelo fim dos castigos corporais contra crianças no Caribe.

Crianças de curoçãoLá 40.000 crianças passam a ser protegidas por lei. Se o Brasil aprovar o PL 7672/2010 serão mais de 63.000.000 (Censo, 2010) crianças e adolescentes protegidas.

Lideres Cristãos do Caribe apoiam o estabelecimento de leis que protejam às crianças contra o castigo corporal. Convidamos as lideranças no Brasil a juntarem-se a nós nessa importante luta.

"A punição corporal de crianças por muito tempo tem sido comum em nossa tradição e cultura. Mas o castigo físico como forma de disciplina, é incompatível com os valores fundamentais religiosos de respeito pela dignidade humana, da justiça e da não-violência e as evidências dos danos causados tanto a curto quanto a longo prazo já estão bastante documentadas.” 

Extrato da "Declaração Cristã de apoio a legislação para acabar com o castigo corporal contra crianças", assinado por líderes religiosos em toda a região do Caribe, pág. 20 do documento anexo. Acesse  o Extrato da Declaração AQUI

Marcia Oliveira 1 VII Gente Crescente











Abraços,
Marcia Oliveira
Rede Não Bata Eduque

Fonte: Blog Educar Sem Violência. Cida Alves. 2012.

13 de jun de 2012

Sensibilizar, capacitar, denunciar e acolher: quatro passos importantes e decisivos no enfrentamento do INCESTO.



Sensibilizar, capacitar, denunciar e acolher: quatro passos importantes e decisivos no enfrentamento do INCESTO.


Mariza Alberton










Mariza Alberton*


Há muitos anos venho me dedicando ao estudo da violência, em especial, violência sexual contra crianças e adolescentes. E, dentre todas as modalidades, destaco a violação sexual intrafamiliar ou incesto como a mais complexa, mais danosa, de difícil solução. Isto porque é praticada por pessoas que têm o dever primeiro de cuidar, proteger, amparar e, ao invés disso, maltratam, abusam, desrespeitam. Porque a criança e o adolescente, via de regra, têm afeto pelo abusador e, por isso a vítima vive o terrível drama da ambiguidade, extremamente fragilizada, vulnerável, confusa - dividida entre dois sentimentos opostos: amor e ódio! Porque o abusador incute no abusado a ideia de profunda e irreparável culpa que, destruindo a autoestima, deprime, consome, aniquila e impede a vítima de denunciar. Porque tudo o que acontece entre as quatro paredes do “lar doce lar” reveste-se com a áurea da sacralidade, que torna os segredos domésticos indevassáveis, inconfessáveis, indecifráveis!

Incesto: o cuidado parental substituído por carinho erotizado!

Crianças e adolescentes veem suas vidas desqualificadas; destruídos seus sonhos, suas esperanças... Morrem, a cada dia, simbolicamente ou na verdadeira acepção da palavra.

Ao me deparar com as sobreviventes de incesto, constato que as vítimas podem ser diferentes, os algozes também, os lugares, mas as consequências sempre são muito parecidas.

Há algum tempo, desafiada a escrever sobre o tema “incesto” a fim de participar de uma publicação coletiva, relembrando os casos com os quais tenho me deparado em minha vida profissional, me veio à mente o drama vivenciado por Ignez – cabelos loiros cacheados, mimosa, uma jovem de aparência frágil, mas de grande resiliência diante do sofrimento prolongado. Sobrevivente de incesto, violentada dos nove aos dezesseis anos. Já adulta, despindo-se de culpas e preconceitos, encorajou-se a procurar tratamento e a denunciar seu próprio pai. Certa vez mostrou para mim e para a sua terapeuta uma boneca velha, encardida, com as roupas surradas em desalinho. Confidenciou que no desespero que a consumia, sozinha, prisioneira de suas angustias e dores, costumava, ao longo dos anos, conversar com sua boneca, única companheira em seus dias e noites de solidão. Foi assim que, imaginando a cumplicidade silenciosa de uma boneca com alguém torturado por sentimentos inconfessáveis, na madrugada do dia 1º de novembro de 2006, escrevi o seguinte poema, homenagem à Ignez e a tantas outras meninas vítimas inocentes de crime tão brutal:

MONÓLOGO

Ah! Minha boneca!
Há tanto tempo em minha mão.
És de pano,
não tens coração,
mas sabes de toda a angústia,
que povoa, ano a ano,
meus dias de solidão.
Sou prisioneira!
És a única companheira
na vida sem ilusão!
A boneca escuta,
muda,
o meu lamento,
mas nem por um momento
entende,
nem compreende
o que se passa ao seu redor.
A boneca surda,
não responde.
Nem dá sinal de vida!
Se ouviu o meu lamento,
disfarça,
finge que não vê meu sofrimento.
Boneca cega!
Não enxergas tudo que padeço?
Esta é a vida que mereço?
Tu és simplesmente uma boneca.
Bruxa.
Cinderela ou rainha.
Surda, muda e cega,
mas tua vida é bem melhor que a minha!
Se tens pai,
ele, por certo, é diferente,
porque boneco não é gente.
Assim, com certeza,
ele te ama,
e não te leva para a cama
à guisa de carinho,
- engano ledo! -
nem te forças ao segredo,
para ocultar o que se faz no ninho.
Na vida de “faz de conta”,
tudo pode acontecer:
voar,
ser livre
da manhã até o anoitecer.
Ser bruxa,
Cinderela ou rainha,
qualquer coisa pra não ser criança
e ter vida dolorosa igual a minha.
Meu pai,
o que fizeste com o meu viver?
Me destruístes,
podes crer!...
Quisera ser bruxa,
Cinderela ou rainha...
Vida de “faz de conta”
é bem melhor que a minha!
Por isso eu digo,
firmemente,
é melhor ser boneca
que ser gente!
Mariza Alberton

Para aplacar a terrível chaga que corrói, que destrói, que aniquila a vida das vítimas de incesto, é fundamental que tenhamos um olhar e uma escuta de extrema sensibilidade, competentes e comprometidos. Livres de todo e qualquer preconceito ou pré-julgamento, precisamos acreditar na palavra da criança. Acolher as vítimas, incondicionalmente. Nessa caminhada, não podemos - jamais! - nos transformar em bonecos sem coração, surdos, mudos, cegos...

Coordeno o Movimento pelo Fim da Violência e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes/RS, que foi criado em 1993, em Porto Alegre. Dentro do Movimento, represento a Pastoral do Menor - organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - cuja missão é promover e defender a vida de crianças e adolescentes empobrecidos e em situação de vulnerabilidade pessoal e social.
Desde 2004, como Pastoral e, consequentemente, como Movimento, temos a representação do Rio Grande do Sul no Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.

O Movimento pelo Fim da Violência e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes/RS é uma instância de âmbito estadual. Constitui-se em um espaço aberto, permanente e interinstitucional de controle, denúncia, pesquisa, capacitação, proposição de políticas públicas e fortalecimento de redes, bem como de articulação e de mobilização de toda a sociedade na defesa dos direitos da Criança e do Adolescente, em conformidade com o princípio da Doutrina de Proteção Integral.

Tem como objetivo específico fortalecer a luta pelo cumprimento da Lei Federal nº.8.069/90, Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - enfrentando todas as formas de violência e exploração sexual praticadas contra as crianças e os adolescentes.

Congrega profissionais das áreas do direito, da saúde, educação, comunicação, assistência social; psicólogos, sociólogos, militantes de direitos humanos; organizações governamentais e não governamentais; comitês de proteção à criança, hospitais, igrejas, pastorais, conselhos, fóruns, movimentos populares, parlamentares.

São muitos os objetivos gerais desse Movimento, mas desde a sua fundação, temos nos empenhado, tenazmente, na consecução de duas metas que, no nosso entendimento, são primordiais para consolidar o seu objetivo específico: estimular a formação da consciência crítica da denúncia e trabalhar na capacitação de profissionais da área da saúde, conselheiros tutelares, educadores, gestores públicos e, consequentemente, na capacitação das próprias redes de proteção.
Entendemos que a violência que se abate sobre a nossa infância é um fenômeno cultural aliado às questões de gênero, etnia e, indiscutivelmente, à ideia de poder, de dominação, de sujeição geracional.

Ainda, nos dias de hoje, temos no Brasil – herança da colonização europeia - uma sociedade adultocêntrica, onde a criança, cidadã de segunda classe, é considerada propriedade dos adultos. A essa concepção, agrega-se o modelo de sociedade machista, patriarcal, onde as mulheres e meninas são desvalorizadas e desconsideradas. Quando, em uma perspectiva sexista, são olhadas como fêmeas, estão subordinadas aos caprichos e desejos - de toda a natureza e os mais sórdidos - dos machos.

O incesto insere-se neste contexto. Quando os responsáveis por uma criança ou um adolescente os veem como propriedade sua, quando enxergam nas mulheres apenas a genitália e as consideram com “objetos de cama e mesa”, estão a um passo de se tornarem um abusador sexual. Usarem suas próprias filhas (enteadas, netas, sobrinhas, alunas) para satisfazerem seus apetites sexuais torna-se uma obsessão e a partir daí fazem de tudo para alcançarem seus objetivos.

Em um panorama como esse, resta-nos sensibilizar, informar, formar e denunciar com o firme propósito de desconstruir os paradigmas impostos durante séculos, que vêm se perpetuando de geração em geração.

Violência, incluindo o incesto, é uma manifestação abusiva de poder capaz de ignorar, ofender, humilhar, oprimir, explorar, machucar e até mesmo matar.

Quando as pessoas silenciam diante de um ato violento ou de um contexto sociocultural adverso, elas se tornam cúmplices dos agressores, partícipes dos atos abusivos.

Para denunciar, em primeiro lugar, temos que ser sensíveis e solidários. Conhecer, minimamente, os mecanismos que regem o fenômeno, é, com certeza, o passo seguinte. Daí o meu empenho em sensibilizar e capacitar a comunidade, tendo transformado essas metas em ideal de minha própria vida.

Banalizar a violência é a forma mais covarde de permitir que ela se perpetue.

Posso afirmar que, em todos estes anos em que tenho me dedicado à defesa dos direitos humanos da infância e da juventude, deparo-me com incontáveis situações de violência, dor e desrespeito. Cada caso mais triste do que o outro, mais infame, mais perverso!... Mas - Graças a Deus! – a gente não se acostuma, jamais!

- Trecho extraído do capítulo “Incesto: da insustentável convivência à difícil revelação”, que faz parte da obra coletiva “Incesto e Alienação Parental: realidades que a Justiça insiste em não ver”, coordenação Maria Berenice Dias, - 2.ed.rev.,atual e ampl. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010.

Mariza Silveira Alberton – professora de matemática; especialista na área da Violência contra Crianças e Adolescentes; Coordenadora do Movimento pelo Fim da Violência e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes/RS e do Comitê Estadual de Enfrentamento à VSCA/RS. Ponto focal do Comitê Nacional no Rio Grande do Sul. Autora do livro “Violação da Infância – Crimes abomináveis: humilham, machucam, torturam e matam!”

Fonte: Blog Educar Sem Violência. Cida Alves. 2012.

10 de jun de 2012

Pesquisa aponta fortes indícios de que ser vítima de punição corporal, quando criança, estimule o uso deste tipo de punição quando adulto...


Pesquisa aponta fortes indícios de que ser vítima de punição corporal, quando criança, estimule o uso deste tipo de punição quando adulto...


mão de paz

Temos de nos tornar a mudança que queremos ver no mundo”.
Mahatma Gandhi

Prezad@s amig@s e parceir@s,
Escrevo para divulgar que o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), lança hoje a “Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar sobre Atitudes, Normas Culturais e Valores em Relação à Violação de Direitos Humanos e Violência – Um Estudo em 11 Capitais de Estado”

Entre outros dados o sumário apresenta:
A maioria dos entrevistados, tanto em 2010 (70,5%) como em 1999 (79,6%), revelou ter apanhado quando criança. A punição física regular (quase todos os dias ou uma vez por semana) atingiu, em 2010, 20,2% dos entrevistados, ou seja, 1 em cada 5 entrevistados relatou ter apanhadoregularmente quando criança.

Há forte evidencia que ter sido vítima de punição física quando criança pode redundar em um círculo vicioso no uso da violência sobre os filhos. Assim, os procedimentos adotados por uma geração podem afetar o modo como as próximas gerações serão tratadas.

Tanto em 1999 como em 2010, aqueles que responderam ter apanhado quando criança, se diferenciam dos que relatam não terem apanhado. Aqueles que relataram ter apanhado muito quando criança são os que mais escolhem a opção “bater muito” em seus filhos caso estes apresentassem mau comportamento. São também os que mais esperariam que seu filho(a) respondesse com violência caso fosse vítima de uma agressão física na escola.
Há fortes indícios de que ser vítima de punição corporal, quando criança, estimule o uso deste tipo de punição quando adulto (a), sugerindo um ciclo perverso de uso de força física.

Fica evidente a necessidade de enfrentarmos a banalização do uso dos castigos corporais e tratamento cruel e degradante contra crianças e adolescentes, não só para garantir sua integridade física e psicológica, mas também para a construção de uma sociedade menos violenta.

O sumário completo pode ser obtido AQUI 

Marcia Oliveira 4 - VII Gente Crescente


Marcia OliveiraRede Não Bata Eduquewww.naobataeduque.org.br




Fonte: Blog. Educar Sem Violência. Cida Alves. 2012.