9 de out de 2013

"Ainda tenho amor e respeito pelo meu pai", diz ativista saudita Samar Badawi

Em entrevista exclusiva, líder feminista que sofreu abusos do pai e ficou conhecida mundialmente ao processá-lo e ser presa por isso, fala sobre o tempo que ficou na cadeia, seu segundo casamento e sobre a situação das mulheres em seu país. "Nós ainda não podemos administrar nossas próprias vidas", diz ela

ATUALIZADA EM: 09/10/2013 21h48 - por Larissa Saram

SAMAR BADAWI, UMA DAS MAIS IMPORTANTES MILITANTES FEMINISTAS DA ARÁBIA SAUDITA (Foto: Larissa Saram)
Samar Badawi é uma das poucas mulheres da Arábia Saudita que sabe dirigir. Ela também faz parte de um seleto grupo que se separou do primeiro marido e conseguiu casar novamente, desta vez com um homem que amava. Foi também a primeira mulher a garantir o direito ao voto em seu país, segundo ela mesma conta.
Para conquistar coisas simples, mas tão preciosas, Samar precisou escancarar sua triste história de vida para o mundo: depois de sofrer abusos promovidos por seu pai (ela não revela detalhadamente quais foram eles) por mais de 15 anos, entrou com um processo contra ele e acabou presa por desobediência. Após sete meses e uma campanha internacional fortíssima capitaneada por entidades de direitos humanos, a saudita foi solta e teve a guarda transferida para um tio. O tempo na prisão foi difícil, mas funcionou com uma mola propulsora: hoje Samar Badawi é uma das principais ativistas feministas de seu país e seu trabalho foi reconhecido com o prêmio norte-americano "Mulheres de Coragem": "Hoje minha rotina é viajar o mundo para mostrar a nossa realidade na Arábia Saudita. Quando estou em casa, coordeno grupos de mulheres e as ensino como podem lutar por seus direitos”, disse ela durante passagem pelo Brasil, onde participou como palestrante do evento "Momento Mulher", realizado no começo desta semana.
Um pouco antes de subir ao palco, Samar conversou com Marie Claire e revelou detalhes de sua trajetória inspiradora:

MARIE CLAIRE: Você ficou conhecida no mundo inteiro por denunciar seu pai, ser presa por isso e depois libertada, graças a uma campanha internacional. Como se sente em ser protagonista desta parte da história em favor das mulheres de seu país?
Samar Badawi: Acredito que fiz uma coisa grande quando mostrei a minha história para o mundo inteiro. Dei exemplo de coragem, principalmente para mulheres que sofrem como sofri. Pode ter sido um exemplo pequeno, mas fico feliz em ter feito algo que mostrou que nós, mulheres, também somos seres humanos e têm o direito de viver bem.

M.C.: Qual foi a lição mais importante que tirou do tempo que ficou presa? Naquele momento, pensou em desistir e simplesmente aceitar a situação?
S.B.: Fiquei sete meses na prisão e foi um momento muito importante na minha vida, porque lá aprendi a ter misericórdia no coração, passei a pensar mais nas pessoas que, como eu, também estavam sofrendo naquele lugar, e o meu olhar foi sendo direcionado para o lado positivo da situação. Nunca pensei em desistir. Pelo contrário, fiquei mais forte lá dentro e acreditei ainda mais no trabalho que gostaria de desenvolver assim que saísse de lá.

M.C.: Como você se sentia todas as vezes que tinha de encarar seu pai, depois dos abusos e das denúncias?
S.B.: Me sentia fraca e forte ao mesmo tempo. Fraca porque ele é meu pai e fazia coisas ruins pra mim. Mesmo assim, tenho amor e respeito por ele. E forte porque estava mostrando para ele o quanto é cego, o quanto é importante que as mulheres tenham seus direitos. Sofro muito com tudo o que aconteceu, mas precisava enfrentá-lo. Ele não podia continuar fazendo o que fazia e os outros pais também não podem fazer isso com suas filhas.

M.C.: Casar foi a opção para não ter mais o seu pai como seu responsável. Depois, se separou e, nove anos depois, casou novamente. Como é vista a mulher separada na Arábia Saudita?
S.B.: Quando casei a primeira vez tinha 17 anos e só o fiz porque queria me livrar do meu pai. Casei obrigada. Meu ex-marido me tratava muito mal, como se eu fosse um objeto, que não tem opinião, que pode ser chutado a qualquer hora. Fiquei com ele durante seis anos e então decidi me separar. A vida de mulher separada é horrível: somos condenadas por todos, não podemos fazer nada com liberdade. A sociedade tem medo, porque acredita que a mulher separada carrega pensamentos negativos com ela. Eu só podia sair de casa acompanhada de alguém da minha família. Fiquei assim durante nove anos, até casar novamente com o meu atual marido.

M.C.: Ele era seu advogado, certo? Como é o relacionamento de vocês?
S.B.: Sim, o nome dele é Waleed Abu Alkhair e ele me ajuda muito. Também trabalha em defesa dos direitos das mulheres e do ser humano. Não o vejo muito, apenas duas vezes por semana, porque assim como eu, ele viaja muito. Ele não pode sair da Arábia Saudita.
 
SAMAR FOI UMA DAS PREMIADAS DO MULHERES DE CORAGEM 2012, DADO PELA SECRETARIA DE ESTADO DOS EUA (Foto: Divulgação)
M.C.: Por quê? O que aconteceu?
S.B.: O governo o condenou por postar uma mensagem no Twitter em que falava de seu trabalho como os direitos humanos e de como é difícil a vida de uma mulher na Arábia Saudita. Eles entenderam que meu marido estava falando mal da Arábia para os outros países e o sentenciaram a ficar cinco anos sem sair do país.

M.C.: Como é atualmente a vida de uma mulher saudita em seu país? Está melhorando?
S.B.: Não vai acontecer nada de um dia para o outro, mas estamos subindo degrau por degrau para alcançar tudo o que desejamos. O governo é só um dos poderes com os quais temos que lutar. As famílias também, porque o homem é quem detém todo o poder. Para a Arábia Saudita, a mulher é nada! Estamos conseguindo mudar as coisas aos poucos.

M.C.: O que há de pior para as mulheres na Arábia Saudita?
S.B.: Nós não podemos administrar nossas próprias vidas. Quem decide o rumo que tomamos são os homens. Coisas simples como ir ao mercado, ao médico e até fazer uma cirurgia, precisam de autorização do homem, seja ele pai, marido ou filho. É um absurdo!


M.C.: O que acha que as mulheres sauditas devem fazer para conquistar mais direitos?
S.B.:
 Tudo! Consegui apenas 1% com o meu trabalho. Ainda faltam 99% para melhorar.
M.C.: Por que nunca deixou a Arábia Saudita, mesmo depois de tudo que aconteceu?
S.B.: Já recebi convites para morar em outros países, mas não saio da Arábia Saudita. Preciso ficar ao lado das mulheres, ajudá-las, mostrar que também sofro como elas, mas que faço tudo com fé e coragem. Se fizer meu trabalho fora do país, ninguém vai acreditar que é possível.

M.C.: Qual será o seu próximo passo em defesa dos direitos das mulheres sauditas?
S.B.: Estou começando a trabalhar para tirar o poder do homem de cima da mulher. Permitir que possamos trabalhar, dirigir, tomar decisões sozinha, sem interferências deles. Nós merecemos tem uma vida melhor, mais tranquila. Espero conseguir realizar meu sonho.

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