2 de jul de 2012

Análise crítica do filme Por Dia Nascer Feliz


Por Dia Nascer Feliz



Ficha Técnica
Título Original: Por Dia Nascer Feliz
Direção, roteiro e edição: João Jardim
Produção: Flávio R. Tambellini, João Jardim
Fotografia: Gustavo Habda
Trilha Sonora: Dado Villa-Lobos
Duração: 88 min.
Ano: 2006 / 2007
País: Brasil
Gênero: Documentário
Cor: Colorido

Análise crítica


              Jorge Silva Sousa* 
                                           Núbia Graciela Candida Vasconcelos**

O filme Pro Dia Nascer Feliz é um documentário do diretor João Jardim, ele faz um relato de observação da vida dos adolescentes no Brasil em seis escolas diferentes, sendo as mesmas localizadas em Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. Foram entrevistados alunos, professores e diretores em sua maioria dentro do ambiente escolar. O documentário mostra duas realidades diferentes, a pública e a particular. E dentro dessas realidades eles filmaram salas de aula, corredores, pátios, banheiros, uma reunião de conselho de classe e ouviram relatos da intimidade de alguns alunos.
Então o objetivo do cineasta é promover uma observação crítica da realidade que permeia as escolas nos grandes centros urbanos do Nordeste e do Sudeste. Mostrando diferentes quadros que aparecem entre as instituições observadas, diante das observações percebeu-se que o problema educacional é de grande proporção e que existe também a falta de administração pública.
Diante da falta de administração pública os educadores encontram dificuldades tanto no âmbito estrutural quanto na falta de apoio psicológico. Eles se sentem a mercê do  Estado em relação a falta de materiais pedagógicos, acompanhamento e estrutura física das escolas.
Na realidade da Escola Estadual Cel. Souza Neto na cidade Manari – Pernambuco revela o que era de se esperar da região, uma qualidade de educação péssima, sem recursos didáticos e até mesmo de necessidades básicas. Em um depoimento uma menina cita que não havia descarga no vaso, nem papel higiênico. Antes, bem no início do documentário, já escutávamos uma conversa de fundo de um funcionário da escola que dizia que do pouco de dinheiro que a escola recebia para manutenção, a maior parte ia embora, em pagamentos de contador, uma parte ia para a prefeitura, IPTU, impostos em cima de impostos e no final não sobrava nada.
E sem dúvida para mudar essa realidade é necessário mais investimento e fiscalização do poder público, no livro “Bicho de sete cabeças: para entender o financiamento da educação brasileira”, dos autores Ednir Madza e Marcos Bassi, aborda questões relevantes sobre o assunto. Os tributos são arrecadados pelo governo federal, estadual e municipal. São usados para colocar “em prática políticas publicas nas áreas da educação, saúde, trabalho e emprego e outras que, se alcançassem a todos e todas, diminuindo a distância entre “os que têm” e “os que não têm” (p. 26). Eles são distribuídos pelas três esferas de governo (federal, estadual e municipal). Sendo estabelecido pela Constituição Federal, que a “União deve usar 18% e os estados e municípios 25%, no mínimo da receita resultado dos impostos na manutenção e no desenvolvimento do ensino” (p. 54).
Então diante desse contexto percebemos que os recursos destinados para educação é pouco e mal administrado, não suprindo as suas necessidades básicas. E para que os recursos sejam bem distribuídos é necessário que aconteça uma relação entre o Estado e educação, afim de que ocorra uma real distribuição de responsabilidades para que a escola exerça sua autonomia. “Anísio buscava desenhar a relação possível entre Estado e educação, definindo o que entendia dever ser uma desejável distribuição de competências, tento em vista a autonomia da escola”. (MACHADO, 2004, p. 98).
E como conseqüência disso tudo, o desinteresse dos estudantes ao estudo dominava. Assim também resultando no desinteresse dos professores também, em dar aulas. Pois os professores não tinham mais responsabilidade com a escola e faltava diversas vezes, alegando que não faria nenhuma diferença, já que os alunos não tinham interesse na matéria. Outro motivo alegado pelos professores foi que se sentiam muito desvalorizados, por todos, principalmente pelos alunos, que não tinham respeito pela sua profissão e dedicação.
Então para que aconteça uma gesta democrática faz-se necessário a participação significativa e coletiva de todos, objetivando alcançar o ensino-aprendizagem. Na visão de Santos (2006, p. 04) “organização e gestão escolar, os atores sociais - diretores, professores, pais, alunos etc. – são considerados sujeitos ativos do processo, de forma que sua participação no processo deve acontecer de forma clara e com responsabilidade”.
As escolas analisadas de São Paulo são: Escola Estadual Parque Piratininga II, Levi Carneiro (periferia) ambas estaduais e o Colégio Santa Cruz (particular). As escolas estaduais traziam uma realidade diferente da citada anteriormente. Percebemos uma melhora na aparência dos estudantes e da própria estrutura da escola. Mas os problemas são praticamente o mesmo. Ainda existe uma pobreza da comunidade que limita o desenvolvimento social dos alunos. Em um depoimento uma aluna dizia ser difícil programar um cinema ou um teatro na escola, já que ninguém tinha dinheiro.
De fato os problemas com relação ao interesse dos alunos e disciplina dos professores eram os mesmos, havia uma excessiva falta de professores, que resultava diversas vezes em que os alunos eram liberados mais cedo, porque não teriam mais professores para dar aula. Apesar da dura realidade percebemos que alguns educadores ainda conseguem fazer a diferença. Segundo relato da professora Celsa “diz faltar devido ao cansaço e faz terapia, para ela não existe relação entre comunidade escolar-professor-aluno-sociedade”. No entanto a mesma é a criadora do “Franzine” (jornal escolar em forma de poesia e mosaico). Percebe-se que não é falta de interesse por parte do educador que busca a participação dos alunos ativamente, mas as vezes tem pouco retorno por parte dos alunos,  e não muito diferentes os mesmos se sentem desmotivados pela realidade que os cercam. Outro depoimento citado pela professora Suzana “diz não acreditar no papel da escola, que se sente desmotivada pelo comportamento dos alunos”.
Já na realidade do Colégio Santa Cruz é bem diferente, mas como já foi dito, não é motivo para ausência de problemas. Uma escola de classe social alta, onde os estudantes encontram muitos problemas, mas nenhum deles com certeza seria a falta de recursos, pelo menos, materiais. Em um depoimento ficamos surpresos com o motivo de um choro da estudante, que dizia estar sofrendo porque muitos a julgam de estudiosa demais, e com isso ela nem namora mais. Aí está a grande diferença entre pessoas de classes sociais diferentes onde o pobre tem que se preocupar com o que vai comer mais tarde, ou como vai embora para casa se a violência toma conta da cidade. Enquanto que um estudante de classe média alta fica se lamentando por preocupações supérfluas, como o que as pessoas dizem sobre ele, qual status deve ter quando formar, coisas do tipo.
Mesmo assim o problema do insucesso da educação não some nestes lugares privilegiados, as notas continuam sendo baixas porque os alunos se interessam por outras coisas, não por estudar. Vários alunos dessa escola justificam suas notas ruins, por problemas familiares, como carência, falta de um abraço dos pais, ou até mesmo o fato de seus pais não morarem juntos mais. Outros dizem ficar perturbados com o processo de estudo, por se sentirem pressionados ou cobrados excessivamente pelos pais, pela própria instituição e por si próprios, causando uma série de perturbações e prejudicando suas notas.
A escola Estadual Duque de Caxias – Rio de Janeiro enfrenta a mesma realidade das escolas estaduais citadas anteriormente, porém com um problema a mais, a boca de fumo fica a poucos quilômetros da mesma. Nessa escola foi presenciado um conselho escolar onde o assunto em questão era a o aluno Douglas, que estava de dependência em várias disciplinas, porém as educadoras se viam frente a uma situação difícil, se ele ficasse de repetência, correria o sério risco de evasão escolar, adentrando assim no mundo da criminalidade. No entanto o mesmo era inserido no processo cultural da escola como forma de interação com a mesma.
Percebemos que existe grandes desafios para implementação de uma gestão democrática, pois os gestores têm uma visão distorcida do que vem a ser participação coletiva. Segundo (HORA, 2002, p. 49), “a gestão democrática em educação é uma ação administrativa desenvolvida na perspectiva de construção coletiva exige a participação de toda a comunidade escolar nas decisões do processo educativo”, ou seja, na perspectiva de uma gestão democrática é necessário que a participação seja um direito e um dever de todos os integrantes da comunidade escolar.
Para que o processo educativo ocorra de forma significativa é necessário que os gestores administrem a instituição dentro do cumprimento das leis, sem perder o foco que é o ensino aprendizagem dos educandos. Sendo função básica do diretos as ações de organizar e administrar, tendo em vista as orientações superiores, cabe a ele também função de,

realizar uma liderança política, cultural e pedagógica, sem perder de vista a competência técnica para administrar a instituição que dirige, demonstrando que o diretor e a escola contam com possibilidades de, em cumprimento com a legislação que os rege, usar sua criatividade e colocar o processo administrativo a serviço do pedagógico e assim facilitar a elaboração de projetos educacionais que sejam resultados de uma construção coletiva dos componentes da escola (HORA, 2002, p. 53).

Outro aspecto importante no processo educacional da escola é o envolvimento dos educadores na construção do conhecimento de forma coletiva, juntamente com a participação da comunidade, proporcionando um melhor ensino-aprendizagem de forma a valorizar o conhecimento prévio dos educandos e favorecer na troca de experiências com intuito de torná-los críticos e observadores.

A convivência estreita entre os professores e as famílias, que pede o conhecimento das condições materiais e sociais dos alunos, acaba permitindo que o relacionamento se processe de forma mais humana, favorecendo ao professor uma compreensão maior das ações e reações dos alunos, o que o leva a uma modificação no tratamento pessoal (HORA, 2002, p. 122).

Então percebemos que o desenvolvimento democrático da escola se constrói no cotidiano escolar com a participação de todos os envolvidos, sempre analisando a realidade inserida, pois para que o processo de participação coletiva aconteça é necessário que tenham conhecimento e clareza dos conteúdos e do que realmente vem a ser participação coletiva.

A participação de professores, alunos, pais e funcionários na organização da escola, na escolha dos conteúdos a serem ensinados, nas formas de administração da mesma será tão mais efetivamente democrática, na medida em que os componentes dominem o significado social das suas especificidades numa perspectiva  de totalidade, isto é, se o significado social da prática de cada um é capaz de desenvolver a autonomia e a criatividade na reorganização da escola para melhor propiciar a sua finalidade: democratização da sociedade pela democratização do saber ( HORA, 2002, p. 135).

Então participar significa é estar inserido nos processos sociais de forma efetiva e coletiva, opinando e decidindo sobre planejamento e execução. Diante dos estudos/observações concluímos que o filme é bem esquematizado, pois mostra uma nítida diferença social, tanto financeira, quanto cultural das escolas e regiões apresentadas no filme. Mas ao desenrolar das tramas, percebemos também que os problemas estão presentes em todos os lugares, se diferem um pouco um do outro, devido às oportunidades que cada um tem, mas no final o problema de todos leva a um só destino. O insucesso escolar.
A análise do filme e em particular de cada escola, nos mostra que diferenças existem, mas a educação final do jovem brasileiro não se difere muito. Encontramos falhas na estrutura das escolas de todas as classes, onde as mesmas, muitas vezes não estão preparadas para lidar com as diversas situações em que a sociedade, o jovem pode trazer. Existe um comodismo no processo educativo e uma maquiação dos problemas encontrados, onde não se faz muito esforço para exterminá-los de vez, apenas procuram um jeito de amenizar a situação ou apenas ignoram os problemas.
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*Acadêmico do 4º Ano do Curso de Pedagogia, da Universidade Estadual de Goiás, unidade universitária de Inhumas.

** Acadêmica do 4º Ano do Curso de Pedagogia, da Universidade Estadual de Goiás, unidade universitária de Inhumas.

Referências

HORA, Dinair Leal da. Gestão Democrática na escola: Artes e ofícios da participação coletiva. 10 ed. Campinas: SP, Papirus, 2002, p. 144.

MACHADO, Lourdes Marcelino. Autonomia administrativa, financeira, poder local e políticas educacionais: uma analise a partir de artigos de Anísio Teixeira. In: MARTINS, A. M.; OLIVEIRA, C.; BUENO, M.S.B. Descentralização do Estado e municipalização do ensino: problemas e perspectivas. Rio de Janeiro. DP&A, 2004.

MADZA, Ednir. BASSI, Marcos. Bicho de sete cabeças: para entender o financiamento da educação brasileira.  São Paulo: Peirópolis. Ação Educativa, 2009, p. 15-68.

POR Dia Nascer Feliz. Direção, roteiro e edição: João Jardim.   Produção: Flávio R. Tambellini, João Jardim. Brasil. 2006/2007. 1 DVD (88 min.), color., dublado.

SANTOS, Ana Lúcia Felix dos. Gestão democrática da escola: bases epistemológicas, políticas e pedagógicas. 29 Reunião Anual  da Anped. Caxambu. 2006.

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