2 de jul de 2012

O prato azul-pombinho - Cora Coralina


O prato azul-pombinho - Cora Coralina

 
O Prato capa
  No poema “O prato azul-pombinho” Cora Coralina narra o cruel costume vilaboense de castigar as crianças que quebravam uma louça amarrando um caco da “bendita preciosa” em seus pescoços pequeninos.


Era um prato sozinho, último remanescente, sobrevivente,
sobra mesmo, de uma coleção,
de um aparelho antigo de 92 peças,
Isto contava, com emoção, minha bisavó, que Deus haja.
Era um prato original, muito grande, fora de tamanho,
um tanto oval.


Prato de centro, de antigas mesas senhoriais
de família numerosa
de festas de casamento e dias de batizado.
Pesado. Com duas asas por onde segurar.
Prato de bom-bocado e de mães-bentas.
De fios-de-ovos.
De receita dobrada, de grandes pudins,
recendendo a cravo, nadando em calda.

Era, na verdade, um enlevo.
Tinha seus desenhos em miniaturas delicadas:
todo azul-forte, em fundo claro num meio-relevo.
Galhadas de árvores e flores, estilizadas.
Um templo enfeitado de lanternas.
Figuras rotundas de entremez.
Uma ilha.Um quiosque rendilhado.
Um braço de mar.
Um pagode e um palácio chinês.
Uma ponte.
Um barco com sua coberta de seda.
Pombos sobrevoando.



Minha bisavó traduzia com sentimento sem igual,
a lenda oriental estampada no fundo daquele prato.
Eu era toda ouvidos,
aquela estória da princesinha Luí, lá da China
- muito longe de Goiás -
que tinha fugido num quiosque muito lindo
com aquele a quem queria,
enquanto o velho mandarim - seu pai -
concertava, com outro mandarim de nobre casta,
detalhes complicados e cerimoniosos
de seu casamento com um príncipe todo-poderosos, chamado Lí.
Então, o velho mandarim, que aparecia também no prato,
de rabicho e de quimono,
com gestos de espavento e cercado de aparato,
decretou que os criados do palácio
incendiassem o quiosque
onde se encontravam os fugitivos namorados.



E lá estavam no fundo do prato,
- oh, encanto da minha meninice! - pintadinhos de azul,
uns atrás dos outros - atravessando a ponte,
com seus chapeuzinhos de bateia
e suas japoninhas largas,
cinco miniaturas de chinês.
Cada qual com sua tocha acesa
- na pintura - para por fogo no quiosque
- da pintura.

Mas ao largo do mar alto
balouçava um barco altivo
com sua coberta de prata,
levando longe o casal fugitivo.

Havia um pombo com argolinha no pé,
e ali, uma mensagem da boa ama,
dando aviso a sua princesa e dama,
da vingança do velho mandarim.

Os namorados, então, na calada da noite,
passaram sorrateiros para o barco,
driblando o velho, como se diz hoje.
E era aquele barco que balouçava no mar alto da velha China,
no fundo do prato.
Eu era curiosa para saber o final da estória.
Mas o resto, por muito que pedisse, não contava a minha bisavó.
Dizia ela - o resto não estava no prato nem constava do relato.
Do resto, ela não sabia.
E dava o ponto final recomendado.
“- Cuidado com este prato!
É o último de 92.”


Devo dizer, que esses 92 não foram do meu tempo.
Os outros - quebrados, sumidos, roubados
- traziam outros recados, outras legendas.


Do meu tempo só foi mesmo aquele último
que, em raros dias de cerimônia ou festas do Divino,
figurava na mesa em grande pompa,
carregado de doces secos, variados, muito finos,
encimados por uma coroa alvacenta e macia
de cocadas-de-fita.

Às vezes ia de empréstimo à casa da boa tia Nhorita.
E era certo no centro de mesa
de aniversário, com sua montanha de empadas, bem tostadas.
No dia seguinte voltava, conduzido por um portador
que era sempre o preto de valor Abdênago,
de alta e mútua confiança.
Voltava com muito-obrigados e, melhor - cheinho de doces e salgados.
Tornava a relíquia para o relicário
que no caso era um grande e velho armário
alto e bem fechado.



UM DIA...
por azar, sem se saber, sem se esperar,
artes do salta-caminho, partes do capeta,
fora de seu lugar, apareceu quebrado,
feito em pedaços - sim senhor -
o prato azul-pombinho.

Foi um espanto. Um torvelinho. Exclamações. Histeria coletiva.
Um deus-nos-acuda. Um rebuliço.
Quem foi, quem não foi?...

O pessoal da casa se assanhava.
Cada qual jurava por si.
Achava seus bons álibis.
Punia pelos outros.
Se defendia com energia.



Eu, emocionada, vendo o pranto de minha avó,
lembrando só da princesinha Luí -
comecei a chorar,
que chorona sempre fui.

Foi o bastante para ser acusada e apontada
de ter quebrado o prato.
Chorei mais alto, na maior tristeza,
comprometendo qualquer tentativa de defesa.

De nada valeu minha fraca negativa.
Fez-se o levantamento de minha vida pregressa de menina
e a revisão de uns tantos processos arquivados,
tinha já quebrado - em tempos alternados,
três pratos, uma compoteira de estimação,
uma tigela, vários pires e a tampa de uma terrina.

O dito, melhor feito.
Logo se torceu no fuso um cordão de novelão.
Encerado foi. Amarrou-se a ele um caco, de bom jeito,
em forma de meia-lua.
E a modo de colar, foi posto em seu lugar,
isto é, no meu pescoço.
Ainda mais agravada a penalidade:
proibição de chegar na porta da rua.
Era assim, antigamente.


Dizia-se aquele, um castigo atinente,
de ótima procedência. Boa coerência.
Exemplar e de alta moral.

Chorei sozinha minhas mágoas de criança.
Depois, me acostumei com aquilo.

No fim, até brincava com o caco pendurado.
E foi assim que eu guardei no armarinho da memória,
bem guardado, a estória, tão singela,
do prato azul-pombinho.


Cora






 Cora Coralina, poetisa goiana.














Fonte: Blog Educar Sem Violencia. Cida Alves. 2012.

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